terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Forro de Cetim

Foi no dia seguinte ao feriado de Tiradentes que Teresinha começou a planejar sua última festa. Detestava o calor, não pensava direito em dias muito quentes, mas aquele não era um dia comum. Ia enterrar a única tia com a qual conviveu. Gostara muito dela e tudo acabava tão de repente. Na verdade, ela já estava acamada há meses. Por causa da má vontade dos médicos em fazer o atestado de óbito, Tia passou toda a noite no IML, sozinha, esperando o início do dia para saber por que morrera. Por que faleceu num feriado? Restava apenas duas horas para o enterro e nada do corpo chegar. Foi com a Filha e a Mãe escolher o caixão. Eram urnas simples, mas com cruzes ou o Espírito Santo entalhados na tampa. Como não tinha religião, comentou com a Filha que, quando morresse, não queria ser enterrada numa urna como aquela. Queria um caixão como aqueles que conhecera em sua infância. Eram forrados com tecidos em diversas cores. Para crianças, cores pastéis; para adultos, branco, preto ou roxo. Disse à Filha que iria comprar cetim roxo e guardar para que ela forrasse seu último leito. A Mãe contou várias vezes que a sua mãe, a adorada Vó Chiquita, costurou com suas próprias mãos, uma mortalha para ser enterrada. Era o costume dos antigos, então Teresinha achou que poderia decidir a cor de seu caixão. Mortos não decidem e Teresinha queria escolher como ir embora... Devanear amenizava um pouco a dor da perda.
Naquele momento não teve a real dimensão que o plano tomaria. A Filha prometera para não chatear a mãe e seguiram para o velório. Desceram por entre os túmulos e Teresinha viu muitas baratas saindo das rachaduras de algumas lápides. Na hora, não pensou a respeito. Aquela visão, porém, ficou guardada em algum compartimento de sua cabeça, secretamente esperando para vir à tona.
No dia seguinte ao enterro, Serapião, seu pai, contratou um plano funerário para a família. Queria assegurar conforto numa hora tão dolorosa. Ficou contrariada a princípio, pois tanto os pais quanto ela e seus irmãos possuíam necessidades mais urgentes. Aos poucos, conformou-se com a idéia e ligou para a empresa para saber se poderia escolher o caixão em vida e forrar com tecido de sua escolha. A atendente disse que sim e ela ficou feliz.
Lembrou-se de quando começou sua paixão por aquela cor tão incomum. Aos cinco anos, fez amizade com Denise. Ela morava do outro lado da rua, ao lado da padaria da Da. Lourdes. A casa de Denise ficava nos fundos do comércio de seu pai. Era uma loja funerária e os caixões eram feitos ali. As meninas brincavam de esconde-esconde dentro das urnas. Apaixonou-se pelo cheiro da madeira e pelo lilás forte usado para o revestimento dos caixões.
Deixou de ir lá brincar quando conheceu a morte pela primeira vez. Seu amigo, Zé Carlos, caiu na sarjeta, foi atropelado e faleceu. Ele era filho do coveiro e o Cemitério das Lágrimas ainda não havia recebido ninguém. Teresinha sempre ia com Zezinho levar o almoço para o pai dele. Achava o local um jardim mágico, com todos os matizes de cores das flores e borboletas. Triste, foi a todas as casas com jardim pedir flores para homenagear o Zé. Como moravam perto e eram pobres, o cortejo seguiu a pé até o cemitério. Todo o trajeto foi feito num silêncio insuportável, tanto quanto a dor de todas as pessoas ali presentes. Seu amigo inaugurou o cemitério num belo dia de sol. Ela perguntou a Deus se ele não poderia levar alguém já idoso, por que o Zé, tão jovem? O tempo se encarregou de curar seu espírito. Não há idade para a morte e esta era a única certeza que Teresinha tinha na vida: iria morrer.
Sua paixão pelo lilás continuou, mas não era uma cor fácil de ser vista. Muitos anos se passaram até que ela pudesse encontrar roupas roxas. Quando a cor entrou na moda, tratou logo de comprar tudo o que podia: roupas, cortinas, colchas, lençóis. Pintou as paredes dos quartos num tom lilás mais claro. Adquiriu também bolsas, maquiagem, sapatos, bijuterias. Quando alguém fazia algum comentário, dizia que seu gosto por essa cor já se tornara patológico. Era impossível resistir.
Num dia em que a gozação foi mais intensa que o normal, lembrou do pedido feito à Filha. Quis dar o troco. Então, divertida, contou seu plano de forrar até seu caixão de roxo. Os queixos caíram. Deliciada por conseguir chocar a todos, disse que seu velório seria uma grande festa. Informou que já pedira à sua filha para comprar pizzas, de vários sabores, pão sírio com zattar e azeite, sucos e refrigerantes, sorvete, brigadeiro. Queria que todos se divertissem e comessem à vontade, nada de choradeiras. Muita música alegre para que pudessem dançar.
A partir desse dia, voltava sempre a pensar em seu velório. Não que achasse que fosse morrer logo, estava bem saudável. Seu desejo era apenas deixar tudo bem planejado com antecedência e seus filhos cientes. Precisava comprar o tecido. Numa dessas noites de calor em que as baratas entram em casa voando, lembrou-se com terror das baratas que saíam dos túmulos.
-Quero ser cremada! As baratas vão entrar no caixão!
Disse ao Filho sua decisão. Ele, não sabendo do seu plano, ficou mudo de espanto.
- Quero que toquem o Concerto de Brandenburgo, de Bach, com a Orquestra de Berlim. Tocata e Fuga também. Joguem as cinzas nos lugares de que eu mais gosto: no Horto Florestal de Campos de Jordão, no Riacho das Trutas sem trutas e um pouco na praia de Barra de Una, após a meia-noite, numa noite com muitas estrelas. Chamem a Lu para cantar na praia. Escreverei como desejo tudo e entregarei para a Filha. Crisântemos têm cheiro de defunto, talvez flores sem perfume, folhas de cedrinho embaixo do corpo. Não quero que me coloquem sapatos, acho que quebram os pés para calçar.
Teresinha não teve sua vida tão bem planejada. Fatos aconteceram sem que pudesse decidir, nem mudá-los. Se pudesse voltar no tempo, faria diferente tantas coisas... Bem, como o passado é imutável, pelo menos o velório já estava decidido. Até lá, viveria muito ainda e tinha vários projetos em mente. Não conhecia a Biblioteca Nacional, nunca viajou de avião, tinha de ir até Bueno Aires comprar lã e doce de leite. Precisava se mudar da casa alugada em que morava... Foi dormir resolvida a ir até a imobiliária.
Acordou assustada. Não sabia onde estava, não podia se mover. Estaria sonhando ainda? Não sentia nem via seu corpo, nada nem ninguém. Percebeu uma atmosfera amarela, sem luz natural ou artificial, como se estivesse numa cúpula isolada. “Algo de muito errado aconteceu, será que eu morri? Ou me internaram? Como vim parar neste lugar?”
Foi acometida de um pavor negro, desses que enregelam a alma. Achou que o mundo tinha acabado, o mundo como ela conhecera. Ou estivesse presa em uma nave alienígena. Resolveu fechar os olhos, respirar fundo e se acalmar, dormir novamente e acordar desse pesadelo estranho. Aterrorizada, descobriu que não podia fechar os olhos, não havia olhos. Era como se olhasse através da lente de uma câmera. Morrera! Mas como? Lembrou-se de relatos que diziam que quando se acredita na vida após a morte, espíritos viriam guiar o ser em sua travessia, mas se se desesperasse, poderia ser vítima dos trevosos. Nunca acreditou nisso. A morte encerrava tudo. Será que a vida continuava mesmo após a morte? Não teve religião, mas acreditou na existência de um ser superior. Se aparecessem os luminosos, humildemente pediria ajuda. Ficar desse jeito, no limbo, não era uma boa escolha. Será que seus planos para a festa do velório ofenderam alguém da hierarquia celestial? Sabia que alguns povos festejavam a partida de seus queridos.
Esperou.
Nada.
Quando criança se perguntava por que era ela e não outra pessoa. Por que não podia estar em outro corpo e se ver por fora. Queria entender como tinha a consciência de ser quem era. Agora seria só consciência? Talvez fosse assim a manifestação do tal do espírito ou alma. Um eu sem corpo. Como saber se ainda era o eu que habitara o corpo de Teresinha? Leu em algum livro que, quando se morre, um filme de todos os atos se desenrola e o morto, transtornado, culpado, atolado até o pescoço de remorsos, é sentenciado por si mesmo. Será que o tal passado ia demorar a ser exibido?
Foi julgada há muito tempo, ainda jovem, impiedosamente, por pensar demais. Sua pena foi sofrer um extremo desprezo. Agora que perdera o eu corpo, o eu consciência estava condenado à só pensar?Não podia sentir, cheirar, chorar, andar, só pensar, pensar, pensar, mas o eu consciência tinha memórias ainda.
Ficou sem a festa de enterro. Planejou tudo inutilmente.
Recordou certa vez que entrara na enfermaria de um hospital. Eram dois quartos e todos os pacientes tinham o mesmo rosto. Descobriu, penalizada, que de um lado estavam os homens e do outro, as mulheres. Não tinham mais fisionomia. A desnutrição os igualara. Esqueletos recobertos por uma pele enrugada, sem recheio, esperando a morte chegar. Perguntou-se se ainda teriam lucidez, se suportavam estar dentro daquilo que um dia foi seu corpo. Como resistiam tanto tempo sendo só um saco de ossos? Pensou na ironia da existência. Muitas pessoas passam suas vidas fazendo dietas para emagrecer e outros, no fim da jornada, se tornam farrapos humanos, sem gordura, carne e dignidade. Ela se cuidou, fez exames regulares para controlar colesterol, glicemia. Lembrou de seu corpo. Tinha 50 anos, o tempo já se desenhava em si, mas suas carnes estavam lá. Nacos grandes recobrindo os ossos duros, sem osteoporose, ainda bonita. Sim, era uma mulher. Estava bem longe de ser como os zumbis internados naquele triste hospital. Não se lembrava de sua morte... Cremaram seu corpo? Recordava outros fatos, pessoas, a família, seus netos queridos... Nunca mais os veria. É estranho, mas não ter o eu corpo não produz emoções. Pensava e não sentia. Talvez fosse a falta do coração. Imaginou que várias horas haviam se passado. Não tinha referências, só o pensamento e a percepção daquela cor amarela, estática. Ficaria assim pra sempre? Imaginou se, sem novas experiências, pensaria só o já conhecido ou descobriria algo novo em sua consciência.
...
...
Ouviu algo. Seria possível?
Pensou no que ouviu. Aos poucos, foi decodificando, reconhecendo. Enlouquecera afinal.
-Estação terminal Luz

Elisabete Rodrigues Limeira

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Escravo do escrever

Escrever é ser escravo das palavras.

É se deixar penetrar por idéias e pensamentos. É relatar devaneios, carregar pedras que estão a enfeitar o caminho. É descrever o que há de mais sublime e subjetivo.

Sou escravo das palavras e o suor caído sobre o papel é o resultado do abuso sobre a minha carne. escrever é o meu cansaço e o meu ópio.

Trabalho árduo sem recompensas. Escrever é obvservar, e por assim ser, assumir ser um observador. A maior das gratificações seria a ignorância de não enxergar o mundo e sentir o alívio.

Ser escravo do escrever é respirar poeiras e almas das minhas criações. É devorá-las. É ser decifrado.

Escrever é estar nu, com febre, tossindo palavras, chorando palavras. Estar lambusado de frases e textos que irão me perturbar por anos. escrever é ter a punição so assoitamento pelo prazer de me ver sofrer.

Tento fugir em vão. Sou acorrentado à verbos. Escrever é não me permitir à liberdade, por mais que seja a única forma de tê-la.

E ao longe, ver um mundo. Ver suas flores e descreve-las como em um prisma, sabendo que as flores morrerão.

As flores morrerão, é fato, mas as minhas palavras não.

Marco Cavalcanti

Conversa de Criança

- Mãe!...
- Oi.
- Não é verdade que têm dois Jesus?
- Como assim?
- Ué!... Um no céu e outro no térreo.
- Deixa de ser bobo, moleque!...
- A senhora também é...
- Olhe o respeito comigo hem, garoto.
- É a senhora quem diz que seu cartão de crédito vive estourando, mas eu nunca ouvi o barulho.
- Engraçadinho!...
- Kassabinho?...
- Não mistura as coisas, eu disse engraçadinho!...
- Mas é que eu lembrei do sarfadana do prefeito...
- O que é isso menino!... Veja como fala, o prefeito é um homem de respeito.
- Homem de respeito uma pinóia!... Ele é um cabeção de biombo, é isso que é. Por que você votou no Kassabinho? A senhora não é criança.
- Mas, não foi você quem pediu?
- Ora! Eu pedi, mas a senhora e o papai não vivem dizendo que não é para fazer as vontades da gente que é pequeno?
- Sim, é verdade, mas nós achamos que você gostava tanto dele que resolvemos fazer seu gosto.
- Vocês são é muito burros.
- Mas por que você está falando isso, não gosta mais dele?
- Gosto do boneco, mas daquele palhaço, não.
- Que palhaço?
- O prefeito.
- Palhaço! O que ele fez?
- Ele não quer dá mais comida pra gente na hora do almoço. Que criança não precisa comer tanto assim, porque engorda.
- Ele disse isso?
- Disse e fez.
- Você não está mais comendo na escola?
- Só um merrequinha de nada. Que não dá nem para tapar o buraco do dente.
- Amanhã vou na sua escola ver o que está acontecendo...
- Vai nada, a senhora só vive escrevendo dentro do olho.
- Como escrevendo dentro do olho, menino? Você ta louco!
- Escrevendo, passando o lápis na beirado do olho, na frente do espelho, penca que eu não vejo não, é?!
-Ô, menino aquilo é maquiagem.
- Sei... Sei!... Deus tá vendo. Depois o doido sou eu.

Paulo Ferreira

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Ensaio sobre o por do sol

O tempo que resta assim se intitulava o filme, o protagonista morria numa praia deitado na areia, ao fim do dia. O céu em vermelho e roxo se encontrando com a escuridão e um corpo imóvel na praia deserta.

Na wikipédia, o por do sol é o momento em que o sol se oculta no horizonte na direção oeste que pode ser considerado como um processo inverso do nascer do sol que é quando o sol aparece no horizonte na direção leste. Ao período do dia em que ocorre o por do sol dá-se o nome de “ocaso”.

O referido fenômeno apresenta muitas características a serem estudadas, mas devo me ater a alguns aspectos, como segue:
1. a dinâmica das cores;
2. a fotografia do tempo;
3. a geografia das lembranças;
3.1 um país
4. ritos de sobrevivência

tópico 1 – a dinâmica das cores
as cores vibrantes amarelo laranja vermelho se juntam ao lilás e à ultima tonalidade do vermelho que é o roxo machucado e vão se mesclando em infinitas gradações até que a noite se instala - com o seu escuro de luzes urbanas, ou com o seu escuro de luz de candeeiro na mercearia da vila, ou com o sino anunciando a ave maria e os adolescentes saindo do colégio com os seus trinados peculiares numa cidadezinha qualquer.

tópico 2 – a fotografia do tempo
quando o roxo se torna roxo machucado voce sabe que esse é o último slide, é a ultima foto do fim.

Tópico 3 – a geografia das lembranças
neste tópico fiz várias descobertas em diversas fases da vida. Na infância, da calçada de casa, achava que o sol se escondia nas terras de meu avô; na adolescência, da varanda de casa, o sol se punha do outro lado da rua;
Na vida adulta em tres oportunidades de exílio doméstico, o sol era uma bola vermelha que brincava de esconde atras de prédios rosas e azuis que eu avistava da janela.

Tópico 3.1 – Um país
este é o tópico mais complexo, pois após observar o fenômeno de vários ângulos, localizado em diferentes lugares, constatei que ele também é um lugar, mais precisamente um país ou ainda seja mais certo definir como um não-lugar.

Tópico 4 – ritos de sobrevivência
neste país ou neste não-lugar se pode transitar sem ansiedade, pode se alimentar de cores, de tempo, de lembranças. E de qualquer cidade, de qualquer mirante, numa estrada que voce deixa para trás, quando vai embora numa certa tarde de Sexta feira com destino a São Paulo Rio de Janeiro ou Barcelona e a sensação de estar despencando, algo se perdendo para sempre em direção ao nunca mais e então o por do sol acolhe o choro, instala esse não-lugar, esse ponto para onde se pode voltar vindo de qualquer lugar; e assim se completa o pulo no abismo, e assim se pode enfrentar outros abismos e assim se pode inventar outros ritos, outros ritmos, outros ensaios.
Um Não-lugar de onde se pode ver a repetição dos dias, as pegadas do sol indo embora, marcando a passagem do tempo em sua suavidade e violência.


Conceição Bastos

De Volta às Palavras

Passo defronte à escrivaninha. Papel e lápis me aguardam. Sigo apressado. Outras responsabilidades me tomam o tempo.

Volto. Lá estão eles. Convidam-me à labuta. Paro. Penso. Sigo.

O que fazer?

Por diversas vezes tentei retomar meus escritos, mas existe um vazio em minha mente.

Ou não?

Parece que tenho tantas coisas para escrever e, ao tentarem sair de minha cabeça, todas ao mesmo tempo, encavalam-se com os tipos de uma máquina de escrever, datilografados simultaneamente.

O tempo urge. É necessário voltar a escrever.

Sento e, tomado de inspiração, começo. Estou de volta às palavras. Não sei se sentiram tantas saudades de mim quanto eu delas. Substantivos. Adjetivos. Pontos e virgulas. Concordância Nominal. Concordância Verbal. Grafar corretamente. Palavras. Palavras.

Estou em pane. Parece tão simples e fácil.

Há clareza em que escrevo?

Acho que abuso de eufemismos.

Não. Amasso o papel. O que pretendia mesmo contar? Que história esdrúxula. Inverossímil. É atemporal.

Meus leitores merecem algo melhor.

Animais, números, cores, sabores, odores.

Não. Não. Isso já foi contado milhares de vezes. Ou foram milhões.

Um lugar distante. Bem pra lá de Passargada. Sem reis e plebeus. O que acontece? Não sei. As palavras não me vem.

Outro lugar. A Lua. Isso: estou no mundo da lua.

Palavras. Palavras. Quero contar o que sinto. Talvez se relatasse meu último sonho. Aquele que esqueci ao contemplar a beleza dos primeiros raios de Sol.

Meu passeio de final de tarde. Ontem. A ida ao café. As pessoas que encontrei. Não. Alguém já falou disso. Acho que fui eu mesmo. Outro dia. Lembra-se. Era começo de noite e vocês aí parados.

Papel e lápis. Assim.

Quem sabe sonhei tudo isso.

Escrever é tão fácil. Basta pegar o lápis e fazê-lo deslizar pelo branco do papel. Cá estou eu. Nada.
Um crime passional. Isto. Somos todos movidos pela paixão. Posso descrever a bela jovem. O gracejo de seu sorriso e a provocação de seu olhar já seriam o motivo. A arma? Um papel e lápis. Ali parados. Convidando-me. Como o jovem cavalheiro que atravessa o salão para tirar a dama para dançar.

Não. Escrever é difícil. É necessário zelo. As palavras machucam. São afiadas como o bisturi que desliza com seu corte preciso.

Eu quero emoção com minhas palavras. Quero risos e lágrimas. Quero o amor da minha amada e o respeito do meu inimigo.

Elas devem sair tracejante como uma chuva de meteoritos e brilhantes como a aurora boreal.
Palavras. Palavras.

Escrever é apenas. Em papel. Com lápis, caneta ou bico de pena. Trazer em palavras a emoção não presente em mil imagens.

Sidnei Reinaldo dos Santos

ENSAIO SOBRE A EDUCAÇÃO

ENSAIO SOBRE A EDUCAÇÃO

Vivenciamos uma crise no sistema educacional brasileiro. Apesar de sua universalização, com a educação atingindo número de alunos em precedentes, a qualidade fica aquém de necessário para formar o cidadão pleno. A escola se transformou é um espaço de conflitos e os principais protagonistas - discentes e docentes – digladiam-se diariamente.

Poderíamos pensar que a postura passiva dos alunos fosse um comportamento “terceiro-mundista”, mas mesmo nos países desenvolvidos o conflito existe. O tema foi abordado no filme francês SOBRE OS MUROS DA ESCOLA 2008. Discorrer sobre o assunto não é tarefa fácil. Tendemos a ter um discurso panfletário. Mas vamos tentar pontuar alguns problemas que afligem, pais, educadores e, inclusive, alunos.

Raras vezes tivemos educadores como gestores-mores da educação. Historicamente, a educação tem sido tratada como palanque para catapultar políticos carreiristas. Os gestores-políticos jogam suas fichas em carreiras meteóricas. Apresentam fórmulas prontas, propostas por teóricos de gabinetes, sem prática docente, no intuito de resolver em um passe de mágicas, todos os problemas que se acumulam há décadas.

A cada nova gestão, novas tentativas que, em primeiro lugar anulam as vigentes desnorteando todos os envolvidos. Assim, o que era ruim, piora acentuadamente a cada novo governo, independente da esfera pública a qual nos dirijamos.

Estes novos planos não são discutidos com a comunidade escolar, com os educadores e seus representantes legalmente constituídos. Estão fadados ao insucesso e é só aguardar o próximo gestor e as próximas aventuras. A Educação (educadores e educandos) perdem neste jogo de interesses.

Orientado pelas propostas finais da Conferência Mundial de Educação Para Todos, realizada em 1990, na Tailândia, os países subdesenvolvidos colocam em prática medidas Neoliberais, reduzindo investimentos na educação. Superávit primário como reserva para honrar o pagamento da dívida externa consomem recursos.

Com a falta de recursos, cabe ao professor faz tudo “ser criativo” para resolver a falta de materiais em sala de aula. Criatividade passa a ser eufemismo de parcos recursos na educação.

Dentro das relações sociais, percebemos outros graves problemas no sistema educacional. Estamos entrando no que alguns pensadores já chamam de Era da Informática. Os aparelhos eletroeletrônicos estão presentes cada vez mais no nosso dia-a-dia. A modernidade traz benefícios, mas ainda não sabemos como conviver com ela.

A criança moderna é educada pela televisão. Os pais estão ausentes, no trabalho, para garantir recursos que irão prover a família ou em busca dele. Outros, menos instáveis psicologicamente, vagueiam por bares, bingos, etc., onde afogam as suas magoas de uma vida infeliz. Quando desempregados, vivem de políticas assistencialistas (Bolsa Família, Leve Leite, etc.) que governos criam para manter o status quo. Seu amor pelos filhos - o qual tenho certeza que existe - não é externado, já que não está na moda.

Ciente disso, um Gestor chegou a propor a Pedagogia do Afeto, para que professores suprissem o amor ausente para as crianças e adolescentes em casa. O professor pai-mãe iria ter uma relação fraternal e estaria resolvido o problema. Lógico que este não é o único empecilho para que se complete o processo ensino-aprendizagem e não deu certo.

Outro fator é a falta de perspectivas para o futuro próximo. A criança e o adolescente são inteligentes - cabe lembrar que inteligência não está necessariamente associada com o acúmulo de informações e a habilidade em ler e escrever - e vêem os exemplos na mídia (políticos corruptos e nepóticos, uso do corpo para enriquecer - modelos nuas, dançarinas seminuas, apresentadoras infantis com shorts minúsculos - futebolistas habilidosos, instrumentistas nem tanto, tráfico, etc.) de pessoas que não estudaram e se dão bem na vida e os contrários: graduados que não se empregam ou vivem do subemprego.

Ou seja, a mídia mostra o sucesso de alguns. E na sociedade capitalista sucesso está associado a acúmulo de riqueza. E o conhecimento não será, na perspectiva dele, riqueza se não puder ser transformado em dinheiro, bens de consumo, etc. o indivíduo é valorizado pelo que tem ou aparenta ter e não por aquilo que ele realmente é.

O lema “é melhor viver 10 anos a 100 por hora do que 100 anos a 10 por hora”, é o exemplo claro do imediatismo que crianças, adolescentes e jovens almejam. Vida loka e o barato é loko e o processo é lento são bordões repetidos à exaustão pelos jovens da periferia e, hoje, repetidos pelos filhos da classe dominante que ocupam os bancos escolares de colégios particulares.

O estudante perdeu o referencial do que é “estudar”. Estar na sala de aula e copiar algo é o seu limite. O sinal de interrupção da aula é o ponto final. O que copiava, para. O que escutava, cala-se. Nada mais existe. Aquilo é deletado de sua mente, indo para uma lixeira psico-virtual. Poucos têm a prática de se preparar para as argüições e avaliações na escola. Preparar-se para uma prova, rouba-lhe precioso minuto da vida. Afinal estudar para quê? Tirar boa nota para quê? Aprender para quê?

Ler então. Exige atenção, concentração, mais perda de tempo. O romance de tantas páginas pode ser compreendido a partir da sinopse existente na Internet ou do filme alugado na locadora.

A escola, aparelho ideológico, cumpre o seu papel. Seus muros “prendem” os alunos, mantendo-os longe dos acontecimentos e alienando-os. Como eles não entendem que quem detem conhecimento detem o poder, acabam subjugados, dominados, explorados.

No que se refere aos investimento, o dinheiro gasto em educação é pouco (2,4% do Produto Interno Bruto, em 2008). Além disso, os gastos são errados. Interesses escusos vem

Exemplo: no início de 2009 o governo de São Paulo imprimiu centenas de milhares de apostilas para servirem de apoio às aulas (na realidade são para serem seguidas à risca, com cobrança da coordenação, direção, supervisão) com a de geografia contendo mapas errados (América do Sul com dois Paraguais e sem o Equador).

Dinheiro para o ralo.

Cabe pensar: por que imprimir apostilas para apoio, quando há o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) que garante a todos os estudantes do país livros que servirão de apoio às aulas Quem lucrou com o uso de tal verba pública?

Com relação aos docentes. Não podemos negar que alguns são descompromissados. Utilizam a política do holerite. Ou seja: não cobram dos alunos, vivendo uma situação de camaradagem. Os alunos concordam em ficarem quietos para não chamar a atenção e, em alguns casos, recebem a resposta das atividades. Tudo num céu de brigadeiro. Ninguém se estressa.

Mas a grande maioria, compromissada, adoece em sala de aula. Estudos já apontam a existência de uma doença, a Síndrome de Burn-out, que atinge professores em atividade docente. Desvalorizado em sua carreira profissional e tratado como inimigo por aqueles que precisam do conhecimento e experiência adquirida em anos com os pés no chão da sala de aula; tratado como inimigo pelos governantes que os culpam pelo mau desempenho dos alunos; tratado como inimigo pelos pais que não entendem (e nem querem) por que o seu filho ainda não desenvolveu uma habilidade que possa enriquecê-lo e consequentemente à família; tratado como inimigo pela mídia, possuidora de contratos milionários com os governos de plantão.

A sala dos professores o patíbulo. Todos reclamam de suas angústias e sonham em mudar de profissão. O vício ao giz ou a falta de atitude os deixam décadas neste sofrimento.

A educação é pensada para que não dê certo. Um povo consciente é um povo que não será ludibriado tão facilmente. Conhecedor de seus direitos e cumpridor dos deveres lutará sempre por uma sociedade melhor. Quem detém o poder pode se sentir ameaçado.

A sala de aula: um grupo heterogêneo de crianças-adolescentes - meninos e meninas, brancos e negros, magros e gordos, baixos e altos, alimentados e famintos - que copiam tudo o que podem. Não produzem, somente reproduzem, e, por hábito, as respostas aos exercícios são copiar daqui . . . até aqui.

Não se identificam com os colegas ou com a escola. Há um estranhamento constante. Parecem querer demarcar o território (as marcas na parede e nas carteiras, a sujeira em torno de sua carteira, o falar alto, etc.), numa atitude animalesca.

O corredor e o refeitório são transformados em campos de batalha. A comida e o material escolar, as armas.

O exemplo da escola estadual da Zona Leste de São Paulo, em que os alunos “se rebelaram” e arremessaram carteiras e cadeiras janela abaixo, é um exemplo claro do que pode acontecer em uma escola. Foi necessária a intervenção da Polícia Militar.

Resumindo: a escola passou a ser um depósito de pessoas, individualistas e consumistas, com pouco amor próprio e recebido, de grades altas, cuidadas ora por pessoas sem compromisso, ora por pessoas sem auto-estima, pagas com o que sobra do dinheiro público (o restante foi desviado ou mal aplicado). As crianças circulam como em um shopping torcendo para dar a hora de ir para casa, para fazer qualquer coisa.

Como entendermos que, ao final das contas, a criança/adolescente cresça, arrume uma ocupação, construa família e siga esta roda viva. A responsabilidade vem ao longo da vida. A escola é importante, mas sofre ataques há décadas. Precisamos colocar a escola no centro dos debates. Toda a educação - recursos físicos, recursos humanos – precisa passar por uma reformulação. Consultar os profissionais da educação seria a saída mais lógica. Pena a decisão surgirá distante do espaço escolar, como “a mais eficaz reforma educacional de todos os tempos”. E tudo continuará exatamente igual.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Ensaio sobre a paixão

Que o ser humano não vive sem paixão, isso eu não tenho a menor dúvida, viver no sentido amplo da palavra. A paixão nos impulsiona, nos tira do lugar comum, nos dá um brilho diferente ao olhar. Sei que existem paixões que jamais se acabam, por exemplo: minha paixão pela escrita, pela arte, pelos filhos e assim por diante. Só que às vezes vivemos ignorando nossas paixões, a ponto de nos sentirmos mortos, só procurando estes sentimentos dentro de nós é que acordamos para a vida. Mas gostaria de enforcar a paixão entre pessoas, a que nos envolve e nos alucina quando menos esperamos. A sociedade quer aprisionar o ser e a partir daí a promessa de fidelidade eterna. Como se pode ter garantia da não paixão. A química do cérebro pede para que o coração enlouqueça? Como dominar este sentimento que se apodera da alma, se apodera do corpo, fazendo com que as pessoas até mudem de planeta. Temos a necessidade da renovação de sentimentos para nos mantermos vivos? Até quando é saudável a repressão? Até que a morte nos separe, ou até que o cérebro resolva jogar a química para o corpo para que as células fiquem latentes. De repente o ar muda, a cabeça fica zonza, pula-se obstáculo, cerca, corda, a alegria é absurda, perde-se o tino e é hora de sonhar, é hora de viver, é hora de se entregar. Não, quase sempre nos negamos esse direito, as mulheres são as mais castradas, enquanto que os homens parecem poder tudo, porque a paixão está ligada também ao sexo. Afinal, precisam preservar a espécie, são os machos... E a sexualidade das mulheres? Elas são realmente diferentes ou disfarçam os sentimentos? Disfarçam sentimentos... A mulher tem contas a pagar apenas com a evolução de sua alma, de sua existência, de sua responsabilidade humana perante a vida. A paixão gera sofrimentos e às vezes a dor alucina. Como evitar a dor da paixão? Não se apaixonando? E é possível não se apaixonar? Como evitar a dor? Não, não é possível não se apaixonar...

Solange Rossignoli 06.10.2009

Transformação

Vou buscando aguçar os meus sentidos. Pois, só assim, conseguirei realizar a melhor leitura das coisas. A minha leitura. Não a sua e nem a de ninguém. Apenas, a minha leitura.

As leituras me deixam quase sempre sensibilizado. Meu peito saturado de emoções faz verter, uma lágrima aflorar. É quando vem, inevitavelmente, a necessidade. Eu preciso encontrar alguma forma de representar. Representar a minha leitura. A leitura que faço das coisas.

Desta forma, eis que tudo me é revelado. E as palavras se encaixam como a magia mais íntima do meu próprio ser.

Imagens. São muitas imagens. Já não basta simplesmente falar. O falar se perde no tempo. O tempo passa e o falar se perde.

O devaneio dá à mão a insanidade e quebra as barreiras do tempo. É ai que transformo a minha leitura em escrita. Com isso, igualmente àquela marca deixada na alma, deixo também registrado em qualquer lugar do espaço tudo aquilo que os meus sentidos me permitiram, simplesmente, escrever.

Paulo Dantas

18/09/2009

Poema a 30 mãos

O cadáver imaginário se deita no horizonte.
Um gato pulando do telhado
Simples. E logo, é complicado.
Somos nossas palavras
O sorriso do triste enobrece
Foram 27 segundos de espera.
Não sei. Essa coisa quis sair, mas se prende a mim e de dentro grita...
Como o olhar ofuscado pelo sol
Roboticamente sem estrutura Física. Seus passos desengonçados num corpo feito pelo cientista.
Tensão, respiração; sangue, faca, gotas de fel.
Então ai, saberia que tudo quando meus olhos observa transtornados nada mais é que nada...
A flor do mal. Tão bela, tão contrária a mim.
Meu coração não quer se dilacerar. Quer amar.
Reter nas mãos o espontâneo da vida.
E aquela luz... que me cegou e me iluminou!

Proposta do escritor Luiz Roberto Guedes.

Merenda

A história que vou contar a vocês é sobre um menino que apareceu na época da eleição para prefeito da Cidade de São Paulo. Um belo dia, ele veio nos visitar na escola. Juro que acreditei e acredito na transparência daqueles olhinhos azuis. Lembro-me muito bem daquele dia de muito frio, e nós estávamos felizes. Sempre que íamos para a escola a gente não ficava com fome, a merenda estava garantida e tínhamos bastante energia para brincar. Kasabinho apareceu e tomou a merenda conosco. Brincamos juntos, chutamos bola e ele falou do seu sonho de ser prefeito quando crescesse. Poxa! Nós ficamos muito impressionados quando ele falou que continuaria sendo nosso amigo. Comentei com um colega de classe que nele poderíamos confiar. Não é que o menino conseguiu realizar o seu sonho! Chegou lá!Está administrando a cidade. Outro dia, lendo o jornal, vi uma reportagem que falava sobre a redução do número das refeições diárias das creches municipais, por motivos de economia. Ele disse que não sabia que esta atitude tinha sido tomada. Estranhei, porque sempre me pareceu tão bem informado. Mas acho que ele não precisava se justificar, pois isso foi feito para que não ficássemos obesos. Ele está preocupado com a nossa saúde, não quer que as crianças fiquem prejudicadas por excesso de alimentação. Gente, não foi por mal, ele é nosso amigo. Pensem comigo: Vocês acham que uma pessoa de caráter e bondoso como ele seria capaz de tamanha insensatez? Não, eu não acredito. Ele falou que continuaria sendo nosso amigo e amigo não faz isso, amigo não tem duas caras.

Solange Rossignoli 09.10.2009

A morte do boi

Numa manhã, ao lado do Mercado Municipal, na cidade de Carinhanha, extremo norte do estado da Bahia, às margens do Rio São Francisco, presenciei a cena brilhantemente iluminada pelo sol causticante do semi-árido sertão nordestino. No asfalto de paralelepípedo a quentura faiscava nas pedras. Ali iria ocorrer o abate de um boi. Essa imagem brutal ficou guardada na memória e registrado nesses rabiscos que agora transcrevo.

Assisti entorpecido o homem, de gestos secos e certeiros moldados a “arte” de matar, à sua função, atingir num só golpe a nuca do animal, a faca-peixeira de 24 polegadas, é tirada da bainha, afiada, capaz de cortar até o silêncio que se estanca diante a morte. Num movimento largo e com destreza fia o vinco na pedra mó.

Após o golpe, o boi desmorona no chão, mas estrebucha e tenta resistir, a respiração ofegante e os olhos arregalados, antes daparalisação derradeira, olhando o infinito que se esvai, ou para dentro de si, como se fora o espectador de sua própria morte. Aos poucos, perdendo as forças, mas o brio da vida ainda estava presente no corpo ferido, e num último ato de força e coragem tenta inutilmente se levantar. O homem se arma para o próximo ataque e agora, com a destreza do gesto definitivo, sangra a jugular do animal que não mais reage.

O sangue é amparado por um grande aguidal de barro. Como um exímio cirurgião, o homem inicia a operação de retalhar o couro, desnudando o corpo do boi, quando aparece, ainda quente a carne e seu tecido muscular à mostra e ainda trêmulo pelos espasmos dos nervos vivos e das veias mortas. É hora do esquartejamento. O machado de ferro para romper os ossos e a faca limada para manter o fio fino de navalha, a cabeça decepada se junta aos miúdos do corpo jogados em um canto. Os olhos continuam esbugalhados, observando suas próprias partes separadas da matéria, da vida. O ar impregnado do cheiro nauseabundo de sangue.

A faca afiada corta e recorta o boi em pedaços, em poucos minutos o corpo morto é apenas fragmentos, que serão expostos e vendido no próprio mercado e nas bancas da feira. Ali a compra é feita por peças, cada um da assistência já tem seu pedaço escolhido. Atando-o à ponta de um arame com uma espécie de gancho saem a puxar seu naco de carne pelas ruas da cidade, destino, à mistura do almoço.

É para isso que serve e deve se escrever. Para registrar o que um dia a memória pode vir a apagar. Seja relatando os esplendores da vida, como um botão de flor que se abre numa manhã orvalhada ou um “guarda-chuva vermelho que se abre numa tarde cinzenta de inverno”, seja delatando os estertores da morte, da vida, do homem, do boi.

Paulo Luís - Oficina Tantas Letras – outubro de 2009

O que penso e o pensamento dos outros (Ensaio?)

Pensadores deixam seu legado a quem interessar possa. A gente examina e assimila, ou rejeita. Faz tempo que abandonei o hábito de avaliar as coisas e separá-las em dois arquivos, as certas e as erradas, porque entendi (aqui na minha maneira de ver), que isso não existe. Sei que existe para a maior parte das pessoas, e respeito, mas isso foi desprogramado do meu sistema, acho que por desuso. Hoje assimilo o que me falta para continuar construindo meu caminho e apago, o que não me serve.

Provocar é induzir ao erro. Ao erro de responder, de debater e argumentar, tentar infiltrar uma idéia na cabeça de alguém, querendo que esse alguém veja as coisas como você vê. Isso é uma bobagem. Você diz o que pensa e quem toma conhecimento das suas avaliações, afina-se com elas ou não, compartilha com você ou não, acompanha sua trilha ou não. Ninguém convence ninguém de nada.

Quem têm convicção de suas idéias, não as debate, nem têm necessidade de defendê-las. A busca pelo debate é um impulso causado pela incerteza, pela necessidade de afirmação de algo a cerca do que não se tem muita convicção, é um impulso movido pela inquietação da dúvida.

Exceção ao debate socrático. Este é o único debate que tem como base a dúvida consciente, a certeza de que nada se sabe, e o desejo de elaborar junto com o grupo escolhido algumas conjeturas. Essas conjeturas são apresentadas quase como um pedido de "convença-me do contrário", "desconstrua minha idéia", "apresente-me o seu ponto de vista"... Porque é o ponto de vista do outro o que me falta para que eu possa conhecer melhor o que há em volta. Um exercício de elaboração participativa, entre pessoas convidadas a dar sua contribuição para elaboração de algo maior do que apenas uma opinião. Os adeptos de Sócrates eram convidados a emprestar seus olhos para que todos pudessem ver através dos olhos uns dos outros e assim poder crescer. Coisa elegante, generosa e afetiva, movida pelo respeito e pela admiração daquilo que se opõe a mim, que é diferente de mim, o outro, o próximo, ou seja, tudo o que não sou eu.

Perde quem tenta transformar algo tão precioso, que é o outro, o diferente, o que não está contido em mim, o complementar, o que ainda me falta, em uma réplica do conhecido, do manjado, do mastigado e digerido, um clone do eu. Este não cresce, não rompe suas limitações, não ultrapassa fronteiras e morre enterrado no próprio umbigo, não desperta, não vive.

Paulo Luís – Oficina Tantas Letras - Outubro de 2009

ÉTICA - OU A FALTA DELA

Ética: parte da Filosofia que estuda os deveres do homem para com Deus e a sociedade; deontologia, ciência da moral

Nasci no mato, sou caipira, mas aos três anos, fui morar numa grande cidade. Como a família crescia e também o aluguel, meu pai logo tratou de comprar uma casinha à prestação, numa distante cidade dormitório do ABC paulista. A casa tinha um quarto e cozinha e um banheiro externo, sem cobertura. Imagine se alguém tivesse dor de barriga durante um temporal! Não havia luz, água, esgoto, asfalto, nem pensar. Usávamos lampião a querosene e meu pai, muito esforçado, abriu um poço no quintal, as crianças eram as incumbidas de tirar a água para toda a família. Quando chovia, chegávamos à escola sempre mais pesados, nossos sapatos carregavam uma boa quantidade de barro. Tornei-me mestre em deslizar sem cair, era um ponto de honra chegar à aula com a roupa limpa! Nenhum muro dividia as casas, tínhamos um vasto quintal para brincarmos; as galinhas sabiam qual era sua casa, pois só minha mãe possuía galinheiro e elas sempre voltavam para dormir nele.

As bocas aumentavam e meu pai plantou uma horta bem variada no quintal. Eu e meu irmão éramos os responsáveis por mantê-las sempre aguadas duas vezes ao dia. O trabalho era duro, mas sentíamos alegria ao ver os resultados. Vendíamos o excedente de porta em porta, garantindo o pão e leite do dia seguinte.

Na rua acima só existiam casas de um lado. Do outro, uma rica mata nativa que eu sempre visitava, sozinha ou com a família. Ainda posso sentir seu cheiro de vida. Hoje, o local é um belo parque municipal, onde nasce o rio Tamanduateí.

Saí dali ao casar, e fui morar novamente em uma grande cidade. Usar chuveiro e torneira, o barro ficou para trás. Dez anos depois, mudei-me para Rondônia. Numa cidade atravessada por grandes rios e igarapés, ter água era um luxo permitido por poucas horas ao dia. Era apenas filtrada, sem nenhum tratamento, todas as pessoas eram acometidas por giardísie e amebísie. A energia elétrica era gerada por motores a diesel e racionada ao extremo. Havia dias em que tínhamos luz por apenas três, quatro horas. A temperatura na mata, já amazônica, era bem agradável, mas na cidade sem árvores, a média anual ficava em quarenta graus, ficávamos prostrados de calor, sem poder usar o ventilador. Consegui morar lá por dois longos anos. Ao voltar para o sudeste, passei a implicar com torneiras abertas sem necessidade e luzes acesas à toa.

Faço essa retrospectiva para pontuar alguns comportamentos que observo em vários lugares. Sou pedestre e tenho condições de observar os motoristas em seus carrões, não importa se novos ou velhos, caros ou econômicos, nacionais ou importados, a mesma cena se repete: o vidro é abaixado e lixos são arremessados para a rua. Num dia de tempestade, os mesmos motoristas xingarão São Pedro e os políticos pelas enchentes em que ficarão presos, à mercê do resgate ou não dos bombeiros, tendo seus carros arrastados, suas vidas em perigo, mas no auge de seu desespero, jamais responsabilizarão a si mesmo pela ajuda que deram ao jogar seus entulhos na via pública, contribuindo também para o caos.

Minha cidade é a única da região que faz coleta de lixo reciclável. Uma vez por semana, eu e mais três moradores da rua colocamos os recicláveis na calçada. Na noite anterior, o caminhão de resíduo orgânico leva para o aterro sanitário os recicláveis dos outros moradores, desperdiçando material precioso para a cooperativa de desempregados que funciona ao lado do aterro e separa os materiais, conseguindo um bom preço pela venda. No meu trabalho há coletores destinados aos recicláveis e ignorados pelos funcionários. De madrugada (trabalho à noite), inspeciono as lixeiras e retiro garrafas plásticas limpas e as coloco no local adequado. Também me recuso a usar copo descartável. Pessoas como eu são chamadas de “ecochatos”.

Trabalhei por muito tempo na periferia. As ruas estavam sempre cheias de crianças e adolescentes ociosos, seus pais trabalhavam e eles ficavam sozinhos, jogados à própria sorte. O estatuto do adolescente proíbe o trabalho a menores, permitindo que eles estudem, mas não há vagas para todos. Como na sociedade atual, vale mais quem tem, os traficantes logo os possuirão, seja como usuários, fugindo de sua triste realidade, ou como vendedores, para comprar seu tênis, celular, MP3, e alguns passarão com nota máxima, verdadeiros gênios, no vestibular do crime, aptos a possuir de maneira violenta o que teriam com trabalho honesto, se formados para tal. Eu comecei a trabalhar quando criança, nunca fiquei sem estudar e não me senti explorada por isso, ao contrário, somávamos nossas forças. Claro que os tempos eram outros, o quintal de casa era grande e podíamos plantar, criar galinhas, garantia de não passarmos fome. Eu gostaria de ter brincado mais, estudado mais, mas adquiri valores preciosos para minha vida. Naquela época valia quem "era".

A vida hoje é bem mais fácil, pelo menos nas grandes cidades e há uma preocupação em urbanizar as favelas. Enquanto lá trabalhei, cadastrando famílias, quase a totalidade tinha acesso à água e energia elétrica e não pagavam por isso. Não pagavam aluguel, transporte e possuíam acesso grátis a ônibus por serem pobres.

Perto de casa, há uma bonita área verde, com muitas árvores e gramado bem cuidado. É possível encontrar várias espécies de pássaros. Já vi até um pica-pau. Este local não é aproveitado por crianças e seus pais, cachorros e seus donos, talvez por isso tornou-se ponto de venda e uso de drogas. Suas encostas são usadas para despejo de entulhos de construção, móveis velhos, colchões. Eu insisto em lá passear. Quando criança, a mata possuiu para sempre meu espírito e deixou em mim a memória marcante de seu cheiro, seu mistério, seus encantos. A falta de luz me aproximou do céu, me transformando em contempladora do passado da humanidade; quantas vezes vi, extasiada, estrelas cadentes e passava horas imaginando o espaço e os deuses que lá moravam...

Eu tinha, de graça, alimentos orgânicos no prato e hoje leio, horrorizada, os percentuais de agrotóxicos presentes nos alimentos. Eu não tinha Barbies, Polys, cds da Xuxa, Melissas, mas podia fazer eu mesma balanços de corda e voar rumo ao sol. Se uma criança hoje fizesse o percurso a pé que fazíamos até a escola ou nos passeios à mata, parariam, arquejantes, no meio do caminho. Agora são levadas à aula de vans: tristes crianças enjauladas em apartamentos ou casas com muros e portões altos, cercas elétricas, sem direito ao sol, árvores, flores, sem direito a uma vida de verdade, mas muito bem equipados com computador, Wii, celular; pequenos adultos que dominam a tecnologia melhor que seus pais e avós; nunca jogarão taco, queimada, pega-pega, tornando-se obesos, hipertensos, com taxa elevada de colesterol.

Há uma grande mudança nas relações. O "eu" impera absoluto: "tenho que me formar, ter ótimo emprego, ganhar bastante, o carro do ano, uma casa moderna. Companheiro? Sim, mas tem que ser perfeito, ideal e que me idolatre, senão troco por outro. Filhos? Talvez aos 35 anos...". Com tantas facilidades, sucesso, as pessoas não são felizes e "compram" uma fuga em busca da alegria. Bebem, se drogam, viajam, adquirem bens e continuam tristes e vazias. Não aprenderam que a verdadeira felicidade está naquilo que é, ou seria, de graça: passear numa área verde, molhar os pés num riacho limpo, sentir o calor do sol, o vento no rosto, olhar estrelas numa noite sem lua. Ter amigos e simplesmente filosofar sobre suas reais necessidades, seus afetos, descobrir os reais valores que engrandecem o ser. Olhando para trás, o período mais difícil e pobre em que vivi, foi também o maior em riquezas, aquelas que realmente contam e nos preenchem.

Outro dia, numa palestra, um professor de filosofia disse que nos últimos 30 anos, destruímos 30% do planeta. A continuar nesse ritmo, daqui a 65 anos, conseguiremos chegar a 100%. Quem sabe até lá, descubram outro planeta, com água em abundância, onde possamos iniciar uma nova vida, sem os erros cometidos. Um lugar onde possamos sobreviver sem poluir os rios e a atmosfera; plantar sem veneno e tratar a terra com sabedoria. Um lugar em que os animais estejam nas matas, felizes, sem zoológicos, e que, finalmente, o homem aprenda a se alimentar sem destruir vidas. Ou, grande sonho meu, aprendamos a reverter o caos em que nos metemos.
E Deus, onde entra nessa história? Ele é o dono do Universo e nos emprestou o planetinha, que insistimos em lotear, vender, comprar e sujar a nosso bel prazer.

Elisabete Rodrigues Limeira
Tantas Letras! 2009.

Acerca de uma teoria do conhecimento ou as operações do entendimento versus o balaio de impressões, um ensaio

“Todo homem, por natureza, deseja conhecer”, esta frase atribuída a Aristóteles, me faz pensar sobre este desejo e mais ainda sobre a possibilidade e os procedimentos mentais ou sensoriais que nos fazem conhecer.

Os filósofos da antiguidade partiram da pergunta “o que é?” e esta atitude nos conduziu a diversos postulados filosóficos sobre como o conhecimento é possível ao homem. Heráclito de Éfeso fala do fluxo perpétuo, a constante transformação de todas as coisas e o problema: é possível saber alguma coisa? Se ao procurar conhecer o quer que seja este mesmo objeto do conhecimento já terá se transformado em outra qualquer coisa no instante seguinte? Um trajeto entre a realidade oferecida pelos sentidos e a apreensão pelo pensamento. O movimento, o fluir constante do universo e ao fim o produto disto não é conhecimento, porque a coisa já é outra. Então não é possível conhecer!

Demócrito de Abdera que desenvolveu a teoria do atomismo, diz que os seres são compostos e se constituem pelos arranjos e combinações entre partículas e nossa percepção ou apreensão da realidade é fruto da leitura que os órgãos fazem dos átomos, assim, o conhecimento sensível é tão real quanto aquele que o pensamento pode alcançar. O que captamos é precisamente a realidade.

Diriam os sofistas que todas as coisas são ou não são em virtude de como as percebemos ou mais: de como as interpretamos, considerando não existir um único princípio que a tudo comandasse apenas convenções estabelecidas pelos homens, uma sociologia do conhecimento talvez. As virtudes e as verdades eram entendidas como instáveis e fruto da conveniência e relatividade, um barco à deriva. Sócrates, no entanto, visou alcançar algo muito precioso e preciso: passar da multiplicidade de opiniões contrárias, de aparência opostas, de percepções divergentes à unidade da idéia, para ele era possível chegar a aletheia (verdade).

Em princípio a questão colocada é se haveria uma verdade última e se seria possível e que modo chegaríamos a ela, visto que o mundo que se nos apresenta entra em nós pela malha de nossos sentidos os quais nem sempre são precisos e estas imagens, estas percepções seriam decantadas pelo intelecto. Sobre isto concordaria Descartes para o qual “Nada existe.” e, na inexistência de todas as coisas, incluem-se os sentidos, toda a extensão que se apresenta por meio deles poderá ser apenas uma ficção do espírito, ou seja, aquilo que percebemos não existe necessariamente. O método de Descartes desvaloriza os sentidos e, portanto o corpo.

O racionalismo caracterizado na rígida desconfiança de possibilidade de apreensão da realidade pelo sensorial tem seu contraponto na obra de David Hume, segundo este é precisamente a possibilidade de experimentar os objetos sensíveis que nos coloca em contato com o mundo possibilitando assim a aquisição do conhecimento, o mundo se dá a conhecer e o corpo registra impressões de mundo, eis então que tomamos por sabida a realidade que nos circunda.

Poderia dizer que aquilo a que nomeamos de mundo (res-extensa) está no nível do apreendido a partir do cotidiano, todos estamos inseridos numa existência que se dá como algo que podemos reconhecer mediata ou imediatamente como realidade, e nos possibilita a construção do conhecimento, O conhecimento em seus vários níveis ou significações é um resultante de conexões subjetivas quando em contato com determinado evento e a capacidade humana de articular a linguagem (corporal, falada, escrita, pictórica) fornece o meio para a abstração e objetivação do mundo interior e exterior.

Mas em se tratando da escrita e da fala o conhecimento se dá pelo suporte do discurso, nisto Sócrates e os sofistas concordavam, ambos utilizavam-se fundamentalmente da linguagem para o desenvolvimento de sua atividade filosófica, era a partir dela que a construção e educação do pensamento seria possível, sendo para Sócrates um instrumento que conduz a verdade através da dialética, enquanto que para os sofistas a verdade era uma questão de persuasão, mais do que percepção e pensamento, justificando assim o uso da linguagem na forma de retórica visando o convencimento.

Conhecer será por fim, se pudermos definir, uma capacidade de apreender a realidade. O mundo é passível de ser conhecido. E seja pelas operações da razão, seja pelas impressões dos sentidos a realidade será uma construção imagética que efetivamos por meio do corpo quando em contato com os fatos e objetos do mundo. Será este, o corpo, que é propriamente o indivíduo, que nos colocará em contato com o mundo exterior e ainda, será também preciso crer nas convenções que se erguem como conhecimento certo, seguro e imutável, até que alguém demonstre o contrário. Caso não o fosse, talvez nenhuma ciência teria sida desenvolvida, a que se militar em favor de um paradigma para agregar o conhecimento e neste sentido, se não se pode chegar à verdade última, o conhecimento também será fé.

Kelly Guimarães

Outubro/2009

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Escrevo

Por extrema sede

Por puro desespero perante a morte

Por pura paixão...

Por estar apaixonada pela vida

Por estar viva perante um mundo que às vezes preferia estar morta.

Solange Rossignoli

Imortal

Perguntam o porquê escrevo, e eu respondo. A principio quando comecei a escrever, confesso que foi por puro desespero, era para não enlouquecer por completo. Hoje penso que seria para resolver meu problema com a língua e para isso achei que escrever seria um modo mais prazeroso de aprender, mas pensando bem, acredito que escrevo para continuar a viver a qualquer custo, independentemente de estar ou não neste mundo. Escrevo porquê tenho a pretensão de ser imortal.

O poeta é um ser tão criativo, que inventa até um amor

Só para sair da rotina

Só para escrever poesias

Hoje estou tentando escrever, mas a inspiração não vem ao meu favor.

Não quero falar de amor

Tão pouco falar de dor

Fica difícil escrever desse jeito.


Solange 24.09.2009

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Ensaio sobre Escrever

“... Escrever é administrar a vida interior depositando-a na tela do computador, no papel, na areia da praia, ou na pedra das grutas. (A obviedade seria da ordem ao contrário). O Homem começou a sentir necessidade de registrar desde as cavernas. Muitas mensagens também foram escritas na areia do mar: incertezas, paixões inapropriadas, sentimentos não correspondidos. Lembranças que instintivamente o ser humano não quer carregar. O segredo de caçar mamutes, fazer fogo e juntar a “flâmula” (no futuro: “família”, hoje, num pós-modernismo, sujeitos solitários e desagregados).

Como unir as letras unindo os povos?

“... nunca se viu tanto conhecimento desagregado juntos...” (Tiago Novaes).

O homem já queria se preservar usando uma linguagem codificada de signos que apenas séculos depois iriam interpretá-la. Era a resposta – antes da pergunta feita -.

A primeira vez que ele prensou a azeitona, dela pensou ter descoberto-lhe a alma. Séculos depois, menos crédulo e inocente, percebeu ser apenas azeite, e recentemente, novamente buscando suas crendices apoiado na ciência, lhe rende tributos, e se não mais a “adora” como algo que tem parte com os deuses, nutre-se da idéia que lhe trará longevidade e juventude. Sem saber ou programar, já escrevia suas histórias. Tirar algo de si, talvez no afã de livrar-se do que o atormentava, espremia a azeitona. Dessa maneira, exorcizava-se de seus delírios. Espremeu azeitonas: criou azeite, espremeu a madeira, descobriu celulose, espremeu celulose: inventou o papel, espremeu seus pensamentos - exprimiu a escrita -.

Ele sempre sentiu a necessidade de ser compreendido pelo outro, e quanto mais não entende a si mesmo, espera avidamente que o semelhante, ao menos, o entenda, para assim o explicar. Será escrever ter esperanças, que se alguém não o decifrou no presente, no futuro, poderá o interpretar acalentando a certeza inconsciente que somos uma projeção inacabada da evolução humana?. E quando despretensiosamente os homens lá chegarem, poderão nos explicar, nunca mais para nós mesmos, é claro, mas quem sabe, aos nossos tataranetos dos tataranetos o que realmente fomos e tentamos ser. Assim, o homem acalenta-se em acreditar ser explicado, ainda que, postumamente.

Surgiu o pombo correio, a mensagem nas garrafas lançadas ao oceano, Escrita em pergaminho. Chineses e papel. Máquina de escrever. Elétrica. Computador. Cibernética.
E dentre muitos gêneros: a prosa poética.

Será escrever um codificar de alma, criptografar sentimentos, guardar numa pandora seus segredos mais íntimos, que sua razão quer expurgar e seu ego entesourar?

Com os poderes sobrenaturais inventados pela escrita o homem já poderia ter ido ao passado, evocando a idéia de “túnel do tempo” e numa experiência de (re)transfiguração convidaria o René para nos responder, pois quando lembramos de: “....Se penso, logo existo...”, afinal amigo Descartes, se “ escrevo”, logo...o quê ?

Escrever, e, ainda ousar tornar público o que se pensou, será talvez uma doação, entrega cega, semelhante à paixão pelo desconhecido, vencendo o medo da rejeição, o pânico do julgamento. Escreve-se com o sorriso tímido, o olhar fulminante, o baixar de olhos, o retrair dos lábios, o franzir da testa. Talvez escrever seja ter a coragem de não poupar a covardia escondida no próprio peito. Escrever é libertar, se não a si próprio, ao menos ao outro...”

(Parte de “Ensaio sobre escrever”, produzido para oficina “Tantas Letras”, Set.2009)
Lucia Wence

Ensaio contra a parede

Escrever é romper e recompor camadas da pele;
é estar no meio da neblina procurando um farol apenas sonhado;
é sair do fundo de uma mudez intrínseca
na tentativa de dizer: um canto escuro é também um lugar;
Escrever é voltar a noites de chuva
perdidas na infância
numa vila de terra batida e cadeiras na calçada;
é buscar na entrada da gruta as inscrições: eu sou filha das mães
e mãe do filho que não nasceu
e sou o pai,
em nariz, gargalhada e jornal

Escrever é abrir um guarda chuva vermelho
numa tarde de inverno;
Escrever é gritar o seu nome
até que ele vire luz fosforescente;
Escrever é deslizar por feridas implacáveis
sabendo que o sangue pode escorrer pelas ruas;
Escrever é
penetrar escuros sagrados
rios de lama
moinhos da memória

Escrever é cavalgar
em um céu cinza chumbo.





Conceição Bastos

Linhas que trilho

Escrevo porque existo
Existo porque escrevo.
Não há formas de evitar o ato de escrever;
Assim como não deixo de viver.

É como tentar separar aquilo que é intrínseco

Chego a acreditar que minha existência
Não pode ser medida pelos anos que adquiro,
Mas pelas muitas linhas que trilho
Viver é uma paixão, escrever é uma loucura.

Escrever é melhor que sonhar;
Pois quando sonhamos somos levados para longe;
Para o inatingível; Para o distante
Escrever é viver o agora;
Escrever é construir um rio;
É dar vazão as águas de sentimentos, de emoções
De pensamentos.

Escrever é dar nome ao momento;
É registrar o eterno.

Escrever me faz viver,
Viver me faz escrever!

Abraços,

Milton Arioso
blog.miltonarioso.com

Feliz, Triste

Escrever para mim é refugio,
Declaro o que penso, sinto
ou estou vivenciando
A alma se sente feliz
A alma se sente triste

Escrever e auto encontrar-me
Quando pensei que estava perdido
Escrever e como pisar em areia da praia
Rever-se esquecido
sentir-me só
Revendo minha imagem no espelho
À procura de um abraço
De quem não possuo
Alma triste
Alma feliz

Joelma Santos

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Abram as janelas que eu vou mostrar meu texto


Muita gente entendida diz que para escrever é só começar a escrever. Escrever o que vier na cabeça sem se preocupar com estilo, depois é só trabalhar o material, consultar dicionários, rearranjar as frases para que fiquem mais bonitas, ter coerência, coesão essas coisas... pode ser que você não vire um escritor prêmio Nobel, mas pelo menos aprenderá colocar suas idéias no papel. Tá bom, eu ponho minhas idéias no papel, mas e depois, aonde arrumar a bendita coragem para mostrar o maldito texto para alguém?

Quando eu escrevo algo, seja poesia, prosa ou qualquer coisa que me vier na cabeça, geralmente é algo bem “promíscuo”, como diz um escritor fulano de tal que eu não lembro o nome agora. Mas, essa promiscuidade que é o que eu mais gosto, a princípio acho-a ridícula, depois de um tempo acho-a linda e digna de ser editada para logo depois achar um lixo e na maioria das vezes é pra lá que essa obra intestinal vai. Falo assim, por que algumas coisas saem da mente, outras do coração e outras do intestino. As obras da mente instruem e às vezes até divertem, e vice versa. As do coração emocionam e às vezes acrescentam alguma coisa nem que seja momentaneamente. Quem não fez juras a si mesmo depois de ler um livro que o fez chorar, mas logo em seguida voltou a ser o mesmo desumano que sempre foi e que somos todos. As do intestino, são aquelas merdas que poderiam ter ido pro esgoto e que ficam poluindo as prateleiras de livrarias e as mentes de quem ousa comprá-las e o pior, lê-las. Depois ficam rezando tais imundícies nos ouvidos de ingênuos e verdes leitores, que acabam seduzidos por esses peidos materializados em letras.

Escrever sobre escrever vira algo chato de ler. Portanto, abram as janelas...


Mari Vieira

sobre a escrita

quanto a mim, escrevo pela urgente necessidade que tenho de dialogar comigo mesma...
começa com um pensamento latejante concebido aparentemente involuntário no meu espírito, construído pelas impressões com as quais a vida me afetou. este pensamento será ruminado desencadeando outros e outros, a combinação das palavras obedecerá um ritmo que vibra dentro do entendimento, uma sonoridade exigida, necessária, pulsação que condena-me ao seu esgotamento, no que vou escavando, descendo camadas, até que a ânsia primeira seja por inteira despejada no papel, como um parto, uma lágrima, um grito, um espasmo e quando já exausta pareço consumida nela, alcanço ter percorrido todo o caminho e meu trabalho se completou.
chega a vez de abandonar como que arrancando o texto de mim, permitindo que ele assuma existência para além de mim, as vezes são dias, as vezes semanas, e após idas e vindas, finalmente e não sem a sensação do inacabamento, me desprendo e fecho a porta e parto.

Kelly Guimarães

Bloqueio

Já não poderia adiar mais. Inventara muitas desculpas. Um dia eram as compras, em outro, a faxina da casa ou sair com aquele amigo que há muito não via, e, ainda por cima, trabalhava doze horas por dia.

Hoje, tudo estava em ordem, tudo em seu devido lugar, dormira muito além do costumeiro, nenhum compromisso de última hora.

Bastava se concentrar. Tudo estava claro em sua mente. Havia elaborado com muito cuidado. Fechava os olhos e aquilo se desenrolava como um filme à sua frente. Planejara cada detalhe, nada poderia dar errado. Ninguém o estava obrigando a nada, mas, e seus projetos? E aquelas idéias que insistiam em brotar a todo instante?

Desligou os telefones, a sala estava iluminada, a temperatura agradável. Não havia nuvens no céu, todo aquele azul era inspirador. Uma leve brisa balançava as folhas novas da antiga paineira e provocava uma lenta chuva das belas flores lilases do jacarandá. Os sabiás exibiam, atrevidos, suas canções prediletas e provocavam a inveja dos sanhaços e bem-te-vis.

Já estava devaneando novamente. Tomou um copo de água, alongou-se, deu algumas voltas pela sala.

Tentou se lembrar de quantos anos estava se preparando para aquele momento. Já não sabia ao certo. Tantas coisas haviam acontecido, tantas pessoas passaram por sua vida. É engraçado como, de repente, pessoas com quem convivera intensamente simplesmente desapareciam, mudavam de cidade ou arrumavam novos empregos, novos amigos...

Gostara muito do Alfredo. Passaram por situações tão adversas, um ajudando ao outro, sem cobranças. Quando foi a última vez que o viu? Por que não ligou para desfazer aquele mal entendido? Por que preferiu ficar magoado, remoendo aquela velha e conhecida rejeição?

As velhas lembranças lhe tomaram umas duas horas... Levantou-se, lavou aquelas lágrimas que insistiam em subir-lhe aos olhos. Procurou algo para comer, para empurrar aquele nó na garganta...

Sentou-se mais uma vez.

Só percebeu que era noite quando um raio prateado entrou pela janela. A escuridão chamou-o para fora. Era estranho como a rua estava deserta e quieta. O perfume das flores noturnas era inebriante. Adorava caminhar de noite.

Sobre a escrivaninha, uma folha em branco...

Elisabete Rodrigues Limeira

Tantas Letras 2009

Caros amigos de prosa,

Por meio deste blogue, poderemos começar a publicar contos, crônicas, ensaios e todos os exercícios realizados na oficina do Tantas Letras 2009! Sugiro que divulguem o site, e não deixem de comentar e visitá-lo regularmente.
Como se trata de um blog coletivo específico da oficina Tantas Letras, e como todos os escritos publicados aqui serão resultado das propostas dos encontros, peço que me enviem os textos para o email tantasprosas2009@yahoo.com.br, e os textos que não puderem ser lidos nos encontros receberão uma devolutiva por escrito. Ao final dos encontros, transferirei a coordenação do site para vocês.

Grande abraço a todos!
Tiago