Escrever é romper e recompor camadas da pele;
é estar no meio da neblina procurando um farol apenas sonhado;
é sair do fundo de uma mudez intrínseca
na tentativa de dizer: um canto escuro é também um lugar;
Escrever é voltar a noites de chuva
perdidas na infância
numa vila de terra batida e cadeiras na calçada;
é buscar na entrada da gruta as inscrições: eu sou filha das mães
e mãe do filho que não nasceu
e sou o pai,
em nariz, gargalhada e jornal
Escrever é abrir um guarda chuva vermelho
numa tarde de inverno;
Escrever é gritar o seu nome
até que ele vire luz fosforescente;
Escrever é deslizar por feridas implacáveis
sabendo que o sangue pode escorrer pelas ruas;
Escrever é
penetrar escuros sagrados
rios de lama
moinhos da memória
Escrever é cavalgar
em um céu cinza chumbo.
Conceição Bastos
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
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