Ética: parte da Filosofia que estuda os deveres do homem para com Deus e a sociedade; deontologia, ciência da moral
Nasci no mato, sou caipira, mas aos três anos, fui morar numa grande cidade. Como a família crescia e também o aluguel, meu pai logo tratou de comprar uma casinha à prestação, numa distante cidade dormitório do ABC paulista. A casa tinha um quarto e cozinha e um banheiro externo, sem cobertura. Imagine se alguém tivesse dor de barriga durante um temporal! Não havia luz, água, esgoto, asfalto, nem pensar. Usávamos lampião a querosene e meu pai, muito esforçado, abriu um poço no quintal, as crianças eram as incumbidas de tirar a água para toda a família. Quando chovia, chegávamos à escola sempre mais pesados, nossos sapatos carregavam uma boa quantidade de barro. Tornei-me mestre em deslizar sem cair, era um ponto de honra chegar à aula com a roupa limpa! Nenhum muro dividia as casas, tínhamos um vasto quintal para brincarmos; as galinhas sabiam qual era sua casa, pois só minha mãe possuía galinheiro e elas sempre voltavam para dormir nele.
As bocas aumentavam e meu pai plantou uma horta bem variada no quintal. Eu e meu irmão éramos os responsáveis por mantê-las sempre aguadas duas vezes ao dia. O trabalho era duro, mas sentíamos alegria ao ver os resultados. Vendíamos o excedente de porta em porta, garantindo o pão e leite do dia seguinte.
Na rua acima só existiam casas de um lado. Do outro, uma rica mata nativa que eu sempre visitava, sozinha ou com a família. Ainda posso sentir seu cheiro de vida. Hoje, o local é um belo parque municipal, onde nasce o rio Tamanduateí.
Saí dali ao casar, e fui morar novamente em uma grande cidade. Usar chuveiro e torneira, o barro ficou para trás. Dez anos depois, mudei-me para Rondônia. Numa cidade atravessada por grandes rios e igarapés, ter água era um luxo permitido por poucas horas ao dia. Era apenas filtrada, sem nenhum tratamento, todas as pessoas eram acometidas por giardísie e amebísie. A energia elétrica era gerada por motores a diesel e racionada ao extremo. Havia dias em que tínhamos luz por apenas três, quatro horas. A temperatura na mata, já amazônica, era bem agradável, mas na cidade sem árvores, a média anual ficava em quarenta graus, ficávamos prostrados de calor, sem poder usar o ventilador. Consegui morar lá por dois longos anos. Ao voltar para o sudeste, passei a implicar com torneiras abertas sem necessidade e luzes acesas à toa.
Faço essa retrospectiva para pontuar alguns comportamentos que observo em vários lugares. Sou pedestre e tenho condições de observar os motoristas em seus carrões, não importa se novos ou velhos, caros ou econômicos, nacionais ou importados, a mesma cena se repete: o vidro é abaixado e lixos são arremessados para a rua. Num dia de tempestade, os mesmos motoristas xingarão São Pedro e os políticos pelas enchentes em que ficarão presos, à mercê do resgate ou não dos bombeiros, tendo seus carros arrastados, suas vidas em perigo, mas no auge de seu desespero, jamais responsabilizarão a si mesmo pela ajuda que deram ao jogar seus entulhos na via pública, contribuindo também para o caos.
Minha cidade é a única da região que faz coleta de lixo reciclável. Uma vez por semana, eu e mais três moradores da rua colocamos os recicláveis na calçada. Na noite anterior, o caminhão de resíduo orgânico leva para o aterro sanitário os recicláveis dos outros moradores, desperdiçando material precioso para a cooperativa de desempregados que funciona ao lado do aterro e separa os materiais, conseguindo um bom preço pela venda. No meu trabalho há coletores destinados aos recicláveis e ignorados pelos funcionários. De madrugada (trabalho à noite), inspeciono as lixeiras e retiro garrafas plásticas limpas e as coloco no local adequado. Também me recuso a usar copo descartável. Pessoas como eu são chamadas de “ecochatos”.
Trabalhei por muito tempo na periferia. As ruas estavam sempre cheias de crianças e adolescentes ociosos, seus pais trabalhavam e eles ficavam sozinhos, jogados à própria sorte. O estatuto do adolescente proíbe o trabalho a menores, permitindo que eles estudem, mas não há vagas para todos. Como na sociedade atual, vale mais quem tem, os traficantes logo os possuirão, seja como usuários, fugindo de sua triste realidade, ou como vendedores, para comprar seu tênis, celular, MP3, e alguns passarão com nota máxima, verdadeiros gênios, no vestibular do crime, aptos a possuir de maneira violenta o que teriam com trabalho honesto, se formados para tal. Eu comecei a trabalhar quando criança, nunca fiquei sem estudar e não me senti explorada por isso, ao contrário, somávamos nossas forças. Claro que os tempos eram outros, o quintal de casa era grande e podíamos plantar, criar galinhas, garantia de não passarmos fome. Eu gostaria de ter brincado mais, estudado mais, mas adquiri valores preciosos para minha vida. Naquela época valia quem "era".
A vida hoje é bem mais fácil, pelo menos nas grandes cidades e há uma preocupação em urbanizar as favelas. Enquanto lá trabalhei, cadastrando famílias, quase a totalidade tinha acesso à água e energia elétrica e não pagavam por isso. Não pagavam aluguel, transporte e possuíam acesso grátis a ônibus por serem pobres.
Perto de casa, há uma bonita área verde, com muitas árvores e gramado bem cuidado. É possível encontrar várias espécies de pássaros. Já vi até um pica-pau. Este local não é aproveitado por crianças e seus pais, cachorros e seus donos, talvez por isso tornou-se ponto de venda e uso de drogas. Suas encostas são usadas para despejo de entulhos de construção, móveis velhos, colchões. Eu insisto em lá passear. Quando criança, a mata possuiu para sempre meu espírito e deixou em mim a memória marcante de seu cheiro, seu mistério, seus encantos. A falta de luz me aproximou do céu, me transformando em contempladora do passado da humanidade; quantas vezes vi, extasiada, estrelas cadentes e passava horas imaginando o espaço e os deuses que lá moravam...
Eu tinha, de graça, alimentos orgânicos no prato e hoje leio, horrorizada, os percentuais de agrotóxicos presentes nos alimentos. Eu não tinha Barbies, Polys, cds da Xuxa, Melissas, mas podia fazer eu mesma balanços de corda e voar rumo ao sol. Se uma criança hoje fizesse o percurso a pé que fazíamos até a escola ou nos passeios à mata, parariam, arquejantes, no meio do caminho. Agora são levadas à aula de vans: tristes crianças enjauladas em apartamentos ou casas com muros e portões altos, cercas elétricas, sem direito ao sol, árvores, flores, sem direito a uma vida de verdade, mas muito bem equipados com computador, Wii, celular; pequenos adultos que dominam a tecnologia melhor que seus pais e avós; nunca jogarão taco, queimada, pega-pega, tornando-se obesos, hipertensos, com taxa elevada de colesterol.
Há uma grande mudança nas relações. O "eu" impera absoluto: "tenho que me formar, ter ótimo emprego, ganhar bastante, o carro do ano, uma casa moderna. Companheiro? Sim, mas tem que ser perfeito, ideal e que me idolatre, senão troco por outro. Filhos? Talvez aos 35 anos...". Com tantas facilidades, sucesso, as pessoas não são felizes e "compram" uma fuga em busca da alegria. Bebem, se drogam, viajam, adquirem bens e continuam tristes e vazias. Não aprenderam que a verdadeira felicidade está naquilo que é, ou seria, de graça: passear numa área verde, molhar os pés num riacho limpo, sentir o calor do sol, o vento no rosto, olhar estrelas numa noite sem lua. Ter amigos e simplesmente filosofar sobre suas reais necessidades, seus afetos, descobrir os reais valores que engrandecem o ser. Olhando para trás, o período mais difícil e pobre em que vivi, foi também o maior em riquezas, aquelas que realmente contam e nos preenchem.
Outro dia, numa palestra, um professor de filosofia disse que nos últimos 30 anos, destruímos 30% do planeta. A continuar nesse ritmo, daqui a 65 anos, conseguiremos chegar a 100%. Quem sabe até lá, descubram outro planeta, com água em abundância, onde possamos iniciar uma nova vida, sem os erros cometidos. Um lugar onde possamos sobreviver sem poluir os rios e a atmosfera; plantar sem veneno e tratar a terra com sabedoria. Um lugar em que os animais estejam nas matas, felizes, sem zoológicos, e que, finalmente, o homem aprenda a se alimentar sem destruir vidas. Ou, grande sonho meu, aprendamos a reverter o caos em que nos metemos.
E Deus, onde entra nessa história? Ele é o dono do Universo e nos emprestou o planetinha, que insistimos em lotear, vender, comprar e sujar a nosso bel prazer.
Elisabete Rodrigues Limeira
Tantas Letras! 2009.
Nasci no mato, sou caipira, mas aos três anos, fui morar numa grande cidade. Como a família crescia e também o aluguel, meu pai logo tratou de comprar uma casinha à prestação, numa distante cidade dormitório do ABC paulista. A casa tinha um quarto e cozinha e um banheiro externo, sem cobertura. Imagine se alguém tivesse dor de barriga durante um temporal! Não havia luz, água, esgoto, asfalto, nem pensar. Usávamos lampião a querosene e meu pai, muito esforçado, abriu um poço no quintal, as crianças eram as incumbidas de tirar a água para toda a família. Quando chovia, chegávamos à escola sempre mais pesados, nossos sapatos carregavam uma boa quantidade de barro. Tornei-me mestre em deslizar sem cair, era um ponto de honra chegar à aula com a roupa limpa! Nenhum muro dividia as casas, tínhamos um vasto quintal para brincarmos; as galinhas sabiam qual era sua casa, pois só minha mãe possuía galinheiro e elas sempre voltavam para dormir nele.
As bocas aumentavam e meu pai plantou uma horta bem variada no quintal. Eu e meu irmão éramos os responsáveis por mantê-las sempre aguadas duas vezes ao dia. O trabalho era duro, mas sentíamos alegria ao ver os resultados. Vendíamos o excedente de porta em porta, garantindo o pão e leite do dia seguinte.
Na rua acima só existiam casas de um lado. Do outro, uma rica mata nativa que eu sempre visitava, sozinha ou com a família. Ainda posso sentir seu cheiro de vida. Hoje, o local é um belo parque municipal, onde nasce o rio Tamanduateí.
Saí dali ao casar, e fui morar novamente em uma grande cidade. Usar chuveiro e torneira, o barro ficou para trás. Dez anos depois, mudei-me para Rondônia. Numa cidade atravessada por grandes rios e igarapés, ter água era um luxo permitido por poucas horas ao dia. Era apenas filtrada, sem nenhum tratamento, todas as pessoas eram acometidas por giardísie e amebísie. A energia elétrica era gerada por motores a diesel e racionada ao extremo. Havia dias em que tínhamos luz por apenas três, quatro horas. A temperatura na mata, já amazônica, era bem agradável, mas na cidade sem árvores, a média anual ficava em quarenta graus, ficávamos prostrados de calor, sem poder usar o ventilador. Consegui morar lá por dois longos anos. Ao voltar para o sudeste, passei a implicar com torneiras abertas sem necessidade e luzes acesas à toa.
Faço essa retrospectiva para pontuar alguns comportamentos que observo em vários lugares. Sou pedestre e tenho condições de observar os motoristas em seus carrões, não importa se novos ou velhos, caros ou econômicos, nacionais ou importados, a mesma cena se repete: o vidro é abaixado e lixos são arremessados para a rua. Num dia de tempestade, os mesmos motoristas xingarão São Pedro e os políticos pelas enchentes em que ficarão presos, à mercê do resgate ou não dos bombeiros, tendo seus carros arrastados, suas vidas em perigo, mas no auge de seu desespero, jamais responsabilizarão a si mesmo pela ajuda que deram ao jogar seus entulhos na via pública, contribuindo também para o caos.
Minha cidade é a única da região que faz coleta de lixo reciclável. Uma vez por semana, eu e mais três moradores da rua colocamos os recicláveis na calçada. Na noite anterior, o caminhão de resíduo orgânico leva para o aterro sanitário os recicláveis dos outros moradores, desperdiçando material precioso para a cooperativa de desempregados que funciona ao lado do aterro e separa os materiais, conseguindo um bom preço pela venda. No meu trabalho há coletores destinados aos recicláveis e ignorados pelos funcionários. De madrugada (trabalho à noite), inspeciono as lixeiras e retiro garrafas plásticas limpas e as coloco no local adequado. Também me recuso a usar copo descartável. Pessoas como eu são chamadas de “ecochatos”.
Trabalhei por muito tempo na periferia. As ruas estavam sempre cheias de crianças e adolescentes ociosos, seus pais trabalhavam e eles ficavam sozinhos, jogados à própria sorte. O estatuto do adolescente proíbe o trabalho a menores, permitindo que eles estudem, mas não há vagas para todos. Como na sociedade atual, vale mais quem tem, os traficantes logo os possuirão, seja como usuários, fugindo de sua triste realidade, ou como vendedores, para comprar seu tênis, celular, MP3, e alguns passarão com nota máxima, verdadeiros gênios, no vestibular do crime, aptos a possuir de maneira violenta o que teriam com trabalho honesto, se formados para tal. Eu comecei a trabalhar quando criança, nunca fiquei sem estudar e não me senti explorada por isso, ao contrário, somávamos nossas forças. Claro que os tempos eram outros, o quintal de casa era grande e podíamos plantar, criar galinhas, garantia de não passarmos fome. Eu gostaria de ter brincado mais, estudado mais, mas adquiri valores preciosos para minha vida. Naquela época valia quem "era".
A vida hoje é bem mais fácil, pelo menos nas grandes cidades e há uma preocupação em urbanizar as favelas. Enquanto lá trabalhei, cadastrando famílias, quase a totalidade tinha acesso à água e energia elétrica e não pagavam por isso. Não pagavam aluguel, transporte e possuíam acesso grátis a ônibus por serem pobres.
Perto de casa, há uma bonita área verde, com muitas árvores e gramado bem cuidado. É possível encontrar várias espécies de pássaros. Já vi até um pica-pau. Este local não é aproveitado por crianças e seus pais, cachorros e seus donos, talvez por isso tornou-se ponto de venda e uso de drogas. Suas encostas são usadas para despejo de entulhos de construção, móveis velhos, colchões. Eu insisto em lá passear. Quando criança, a mata possuiu para sempre meu espírito e deixou em mim a memória marcante de seu cheiro, seu mistério, seus encantos. A falta de luz me aproximou do céu, me transformando em contempladora do passado da humanidade; quantas vezes vi, extasiada, estrelas cadentes e passava horas imaginando o espaço e os deuses que lá moravam...
Eu tinha, de graça, alimentos orgânicos no prato e hoje leio, horrorizada, os percentuais de agrotóxicos presentes nos alimentos. Eu não tinha Barbies, Polys, cds da Xuxa, Melissas, mas podia fazer eu mesma balanços de corda e voar rumo ao sol. Se uma criança hoje fizesse o percurso a pé que fazíamos até a escola ou nos passeios à mata, parariam, arquejantes, no meio do caminho. Agora são levadas à aula de vans: tristes crianças enjauladas em apartamentos ou casas com muros e portões altos, cercas elétricas, sem direito ao sol, árvores, flores, sem direito a uma vida de verdade, mas muito bem equipados com computador, Wii, celular; pequenos adultos que dominam a tecnologia melhor que seus pais e avós; nunca jogarão taco, queimada, pega-pega, tornando-se obesos, hipertensos, com taxa elevada de colesterol.
Há uma grande mudança nas relações. O "eu" impera absoluto: "tenho que me formar, ter ótimo emprego, ganhar bastante, o carro do ano, uma casa moderna. Companheiro? Sim, mas tem que ser perfeito, ideal e que me idolatre, senão troco por outro. Filhos? Talvez aos 35 anos...". Com tantas facilidades, sucesso, as pessoas não são felizes e "compram" uma fuga em busca da alegria. Bebem, se drogam, viajam, adquirem bens e continuam tristes e vazias. Não aprenderam que a verdadeira felicidade está naquilo que é, ou seria, de graça: passear numa área verde, molhar os pés num riacho limpo, sentir o calor do sol, o vento no rosto, olhar estrelas numa noite sem lua. Ter amigos e simplesmente filosofar sobre suas reais necessidades, seus afetos, descobrir os reais valores que engrandecem o ser. Olhando para trás, o período mais difícil e pobre em que vivi, foi também o maior em riquezas, aquelas que realmente contam e nos preenchem.
Outro dia, numa palestra, um professor de filosofia disse que nos últimos 30 anos, destruímos 30% do planeta. A continuar nesse ritmo, daqui a 65 anos, conseguiremos chegar a 100%. Quem sabe até lá, descubram outro planeta, com água em abundância, onde possamos iniciar uma nova vida, sem os erros cometidos. Um lugar onde possamos sobreviver sem poluir os rios e a atmosfera; plantar sem veneno e tratar a terra com sabedoria. Um lugar em que os animais estejam nas matas, felizes, sem zoológicos, e que, finalmente, o homem aprenda a se alimentar sem destruir vidas. Ou, grande sonho meu, aprendamos a reverter o caos em que nos metemos.
E Deus, onde entra nessa história? Ele é o dono do Universo e nos emprestou o planetinha, que insistimos em lotear, vender, comprar e sujar a nosso bel prazer.
Elisabete Rodrigues Limeira
Tantas Letras! 2009.
É com muito orgulho que digo que dona Elisabete, que me viu crescer e me presenteou com seu amor maternal, mesmo sem ter me trazido ao mundo, foi a pessoa que me ensinou a ser, graças a Deus, tão "ecochata" quanto ela. E ela nunca me disse sequer uma palavra: é que eu a via, sempre, separando o lixo, se alimentando sem o gosto da morte dos animais, chorando o corte de uma árvore para que um prédio em seu lugar nascesse... Uma vida toda de dignidade que me valeu mais que mil ensaios teóricos.
ResponderExcluirLayla Badawya
Beduína e filha :)
Ehhh! Entrei no Blog e andei lendo tudo por aí! Gostei de muita coisa, especialmente do seu texto! Tem se tornado uma escritora! Este é um caminho maravilhoso! Que bom que está ao meu lado
ResponderExcluirBj
Lu