“... Escrever é administrar a vida interior depositando-a na tela do computador, no papel, na areia da praia, ou na pedra das grutas. (A obviedade seria da ordem ao contrário). O Homem começou a sentir necessidade de registrar desde as cavernas. Muitas mensagens também foram escritas na areia do mar: incertezas, paixões inapropriadas, sentimentos não correspondidos. Lembranças que instintivamente o ser humano não quer carregar. O segredo de caçar mamutes, fazer fogo e juntar a “flâmula” (no futuro: “família”, hoje, num pós-modernismo, sujeitos solitários e desagregados).
Como unir as letras unindo os povos?
“... nunca se viu tanto conhecimento desagregado juntos...” (Tiago Novaes).
O homem já queria se preservar usando uma linguagem codificada de signos que apenas séculos depois iriam interpretá-la. Era a resposta – antes da pergunta feita -.
A primeira vez que ele prensou a azeitona, dela pensou ter descoberto-lhe a alma. Séculos depois, menos crédulo e inocente, percebeu ser apenas azeite, e recentemente, novamente buscando suas crendices apoiado na ciência, lhe rende tributos, e se não mais a “adora” como algo que tem parte com os deuses, nutre-se da idéia que lhe trará longevidade e juventude. Sem saber ou programar, já escrevia suas histórias. Tirar algo de si, talvez no afã de livrar-se do que o atormentava, espremia a azeitona. Dessa maneira, exorcizava-se de seus delírios. Espremeu azeitonas: criou azeite, espremeu a madeira, descobriu celulose, espremeu celulose: inventou o papel, espremeu seus pensamentos - exprimiu a escrita -.
Ele sempre sentiu a necessidade de ser compreendido pelo outro, e quanto mais não entende a si mesmo, espera avidamente que o semelhante, ao menos, o entenda, para assim o explicar. Será escrever ter esperanças, que se alguém não o decifrou no presente, no futuro, poderá o interpretar acalentando a certeza inconsciente que somos uma projeção inacabada da evolução humana?. E quando despretensiosamente os homens lá chegarem, poderão nos explicar, nunca mais para nós mesmos, é claro, mas quem sabe, aos nossos tataranetos dos tataranetos o que realmente fomos e tentamos ser. Assim, o homem acalenta-se em acreditar ser explicado, ainda que, postumamente.
Surgiu o pombo correio, a mensagem nas garrafas lançadas ao oceano, Escrita em pergaminho. Chineses e papel. Máquina de escrever. Elétrica. Computador. Cibernética.
E dentre muitos gêneros: a prosa poética.
Será escrever um codificar de alma, criptografar sentimentos, guardar numa pandora seus segredos mais íntimos, que sua razão quer expurgar e seu ego entesourar?
Com os poderes sobrenaturais inventados pela escrita o homem já poderia ter ido ao passado, evocando a idéia de “túnel do tempo” e numa experiência de (re)transfiguração convidaria o René para nos responder, pois quando lembramos de: “....Se penso, logo existo...”, afinal amigo Descartes, se “ escrevo”, logo...o quê ?
Escrever, e, ainda ousar tornar público o que se pensou, será talvez uma doação, entrega cega, semelhante à paixão pelo desconhecido, vencendo o medo da rejeição, o pânico do julgamento. Escreve-se com o sorriso tímido, o olhar fulminante, o baixar de olhos, o retrair dos lábios, o franzir da testa. Talvez escrever seja ter a coragem de não poupar a covardia escondida no próprio peito. Escrever é libertar, se não a si próprio, ao menos ao outro...”
(Parte de “Ensaio sobre escrever”, produzido para oficina “Tantas Letras”, Set.2009)
Lucia Wence
Como unir as letras unindo os povos?
“... nunca se viu tanto conhecimento desagregado juntos...” (Tiago Novaes).
O homem já queria se preservar usando uma linguagem codificada de signos que apenas séculos depois iriam interpretá-la. Era a resposta – antes da pergunta feita -.
A primeira vez que ele prensou a azeitona, dela pensou ter descoberto-lhe a alma. Séculos depois, menos crédulo e inocente, percebeu ser apenas azeite, e recentemente, novamente buscando suas crendices apoiado na ciência, lhe rende tributos, e se não mais a “adora” como algo que tem parte com os deuses, nutre-se da idéia que lhe trará longevidade e juventude. Sem saber ou programar, já escrevia suas histórias. Tirar algo de si, talvez no afã de livrar-se do que o atormentava, espremia a azeitona. Dessa maneira, exorcizava-se de seus delírios. Espremeu azeitonas: criou azeite, espremeu a madeira, descobriu celulose, espremeu celulose: inventou o papel, espremeu seus pensamentos - exprimiu a escrita -.
Ele sempre sentiu a necessidade de ser compreendido pelo outro, e quanto mais não entende a si mesmo, espera avidamente que o semelhante, ao menos, o entenda, para assim o explicar. Será escrever ter esperanças, que se alguém não o decifrou no presente, no futuro, poderá o interpretar acalentando a certeza inconsciente que somos uma projeção inacabada da evolução humana?. E quando despretensiosamente os homens lá chegarem, poderão nos explicar, nunca mais para nós mesmos, é claro, mas quem sabe, aos nossos tataranetos dos tataranetos o que realmente fomos e tentamos ser. Assim, o homem acalenta-se em acreditar ser explicado, ainda que, postumamente.
Surgiu o pombo correio, a mensagem nas garrafas lançadas ao oceano, Escrita em pergaminho. Chineses e papel. Máquina de escrever. Elétrica. Computador. Cibernética.
E dentre muitos gêneros: a prosa poética.
Será escrever um codificar de alma, criptografar sentimentos, guardar numa pandora seus segredos mais íntimos, que sua razão quer expurgar e seu ego entesourar?
Com os poderes sobrenaturais inventados pela escrita o homem já poderia ter ido ao passado, evocando a idéia de “túnel do tempo” e numa experiência de (re)transfiguração convidaria o René para nos responder, pois quando lembramos de: “....Se penso, logo existo...”, afinal amigo Descartes, se “ escrevo”, logo...o quê ?
Escrever, e, ainda ousar tornar público o que se pensou, será talvez uma doação, entrega cega, semelhante à paixão pelo desconhecido, vencendo o medo da rejeição, o pânico do julgamento. Escreve-se com o sorriso tímido, o olhar fulminante, o baixar de olhos, o retrair dos lábios, o franzir da testa. Talvez escrever seja ter a coragem de não poupar a covardia escondida no próprio peito. Escrever é libertar, se não a si próprio, ao menos ao outro...”
(Parte de “Ensaio sobre escrever”, produzido para oficina “Tantas Letras”, Set.2009)
Lucia Wence
Nenhum comentário:
Postar um comentário