segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Ensaio sobre Escrever

“... Escrever é administrar a vida interior depositando-a na tela do computador, no papel, na areia da praia, ou na pedra das grutas. (A obviedade seria da ordem ao contrário). O Homem começou a sentir necessidade de registrar desde as cavernas. Muitas mensagens também foram escritas na areia do mar: incertezas, paixões inapropriadas, sentimentos não correspondidos. Lembranças que instintivamente o ser humano não quer carregar. O segredo de caçar mamutes, fazer fogo e juntar a “flâmula” (no futuro: “família”, hoje, num pós-modernismo, sujeitos solitários e desagregados).

Como unir as letras unindo os povos?

“... nunca se viu tanto conhecimento desagregado juntos...” (Tiago Novaes).

O homem já queria se preservar usando uma linguagem codificada de signos que apenas séculos depois iriam interpretá-la. Era a resposta – antes da pergunta feita -.

A primeira vez que ele prensou a azeitona, dela pensou ter descoberto-lhe a alma. Séculos depois, menos crédulo e inocente, percebeu ser apenas azeite, e recentemente, novamente buscando suas crendices apoiado na ciência, lhe rende tributos, e se não mais a “adora” como algo que tem parte com os deuses, nutre-se da idéia que lhe trará longevidade e juventude. Sem saber ou programar, já escrevia suas histórias. Tirar algo de si, talvez no afã de livrar-se do que o atormentava, espremia a azeitona. Dessa maneira, exorcizava-se de seus delírios. Espremeu azeitonas: criou azeite, espremeu a madeira, descobriu celulose, espremeu celulose: inventou o papel, espremeu seus pensamentos - exprimiu a escrita -.

Ele sempre sentiu a necessidade de ser compreendido pelo outro, e quanto mais não entende a si mesmo, espera avidamente que o semelhante, ao menos, o entenda, para assim o explicar. Será escrever ter esperanças, que se alguém não o decifrou no presente, no futuro, poderá o interpretar acalentando a certeza inconsciente que somos uma projeção inacabada da evolução humana?. E quando despretensiosamente os homens lá chegarem, poderão nos explicar, nunca mais para nós mesmos, é claro, mas quem sabe, aos nossos tataranetos dos tataranetos o que realmente fomos e tentamos ser. Assim, o homem acalenta-se em acreditar ser explicado, ainda que, postumamente.

Surgiu o pombo correio, a mensagem nas garrafas lançadas ao oceano, Escrita em pergaminho. Chineses e papel. Máquina de escrever. Elétrica. Computador. Cibernética.
E dentre muitos gêneros: a prosa poética.

Será escrever um codificar de alma, criptografar sentimentos, guardar numa pandora seus segredos mais íntimos, que sua razão quer expurgar e seu ego entesourar?

Com os poderes sobrenaturais inventados pela escrita o homem já poderia ter ido ao passado, evocando a idéia de “túnel do tempo” e numa experiência de (re)transfiguração convidaria o René para nos responder, pois quando lembramos de: “....Se penso, logo existo...”, afinal amigo Descartes, se “ escrevo”, logo...o quê ?

Escrever, e, ainda ousar tornar público o que se pensou, será talvez uma doação, entrega cega, semelhante à paixão pelo desconhecido, vencendo o medo da rejeição, o pânico do julgamento. Escreve-se com o sorriso tímido, o olhar fulminante, o baixar de olhos, o retrair dos lábios, o franzir da testa. Talvez escrever seja ter a coragem de não poupar a covardia escondida no próprio peito. Escrever é libertar, se não a si próprio, ao menos ao outro...”

(Parte de “Ensaio sobre escrever”, produzido para oficina “Tantas Letras”, Set.2009)
Lucia Wence

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