terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Forro de Cetim
Naquele momento não teve a real dimensão que o plano tomaria. A Filha prometera para não chatear a mãe e seguiram para o velório. Desceram por entre os túmulos e Teresinha viu muitas baratas saindo das rachaduras de algumas lápides. Na hora, não pensou a respeito. Aquela visão, porém, ficou guardada em algum compartimento de sua cabeça, secretamente esperando para vir à tona.
No dia seguinte ao enterro, Serapião, seu pai, contratou um plano funerário para a família. Queria assegurar conforto numa hora tão dolorosa. Ficou contrariada a princípio, pois tanto os pais quanto ela e seus irmãos possuíam necessidades mais urgentes. Aos poucos, conformou-se com a idéia e ligou para a empresa para saber se poderia escolher o caixão em vida e forrar com tecido de sua escolha. A atendente disse que sim e ela ficou feliz.
Lembrou-se de quando começou sua paixão por aquela cor tão incomum. Aos cinco anos, fez amizade com Denise. Ela morava do outro lado da rua, ao lado da padaria da Da. Lourdes. A casa de Denise ficava nos fundos do comércio de seu pai. Era uma loja funerária e os caixões eram feitos ali. As meninas brincavam de esconde-esconde dentro das urnas. Apaixonou-se pelo cheiro da madeira e pelo lilás forte usado para o revestimento dos caixões.
Deixou de ir lá brincar quando conheceu a morte pela primeira vez. Seu amigo, Zé Carlos, caiu na sarjeta, foi atropelado e faleceu. Ele era filho do coveiro e o Cemitério das Lágrimas ainda não havia recebido ninguém. Teresinha sempre ia com Zezinho levar o almoço para o pai dele. Achava o local um jardim mágico, com todos os matizes de cores das flores e borboletas. Triste, foi a todas as casas com jardim pedir flores para homenagear o Zé. Como moravam perto e eram pobres, o cortejo seguiu a pé até o cemitério. Todo o trajeto foi feito num silêncio insuportável, tanto quanto a dor de todas as pessoas ali presentes. Seu amigo inaugurou o cemitério num belo dia de sol. Ela perguntou a Deus se ele não poderia levar alguém já idoso, por que o Zé, tão jovem? O tempo se encarregou de curar seu espírito. Não há idade para a morte e esta era a única certeza que Teresinha tinha na vida: iria morrer.
Sua paixão pelo lilás continuou, mas não era uma cor fácil de ser vista. Muitos anos se passaram até que ela pudesse encontrar roupas roxas. Quando a cor entrou na moda, tratou logo de comprar tudo o que podia: roupas, cortinas, colchas, lençóis. Pintou as paredes dos quartos num tom lilás mais claro. Adquiriu também bolsas, maquiagem, sapatos, bijuterias. Quando alguém fazia algum comentário, dizia que seu gosto por essa cor já se tornara patológico. Era impossível resistir.
Num dia em que a gozação foi mais intensa que o normal, lembrou do pedido feito à Filha. Quis dar o troco. Então, divertida, contou seu plano de forrar até seu caixão de roxo. Os queixos caíram. Deliciada por conseguir chocar a todos, disse que seu velório seria uma grande festa. Informou que já pedira à sua filha para comprar pizzas, de vários sabores, pão sírio com zattar e azeite, sucos e refrigerantes, sorvete, brigadeiro. Queria que todos se divertissem e comessem à vontade, nada de choradeiras. Muita música alegre para que pudessem dançar.
A partir desse dia, voltava sempre a pensar em seu velório. Não que achasse que fosse morrer logo, estava bem saudável. Seu desejo era apenas deixar tudo bem planejado com antecedência e seus filhos cientes. Precisava comprar o tecido. Numa dessas noites de calor em que as baratas entram em casa voando, lembrou-se com terror das baratas que saíam dos túmulos.
-Quero ser cremada! As baratas vão entrar no caixão!
Disse ao Filho sua decisão. Ele, não sabendo do seu plano, ficou mudo de espanto.
- Quero que toquem o Concerto de Brandenburgo, de Bach, com a Orquestra de Berlim. Tocata e Fuga também. Joguem as cinzas nos lugares de que eu mais gosto: no Horto Florestal de Campos de Jordão, no Riacho das Trutas sem trutas e um pouco na praia de Barra de Una, após a meia-noite, numa noite com muitas estrelas. Chamem a Lu para cantar na praia. Escreverei como desejo tudo e entregarei para a Filha. Crisântemos têm cheiro de defunto, talvez flores sem perfume, folhas de cedrinho embaixo do corpo. Não quero que me coloquem sapatos, acho que quebram os pés para calçar.
Teresinha não teve sua vida tão bem planejada. Fatos aconteceram sem que pudesse decidir, nem mudá-los. Se pudesse voltar no tempo, faria diferente tantas coisas... Bem, como o passado é imutável, pelo menos o velório já estava decidido. Até lá, viveria muito ainda e tinha vários projetos em mente. Não conhecia a Biblioteca Nacional, nunca viajou de avião, tinha de ir até Bueno Aires comprar lã e doce de leite. Precisava se mudar da casa alugada em que morava... Foi dormir resolvida a ir até a imobiliária.
Acordou assustada. Não sabia onde estava, não podia se mover. Estaria sonhando ainda? Não sentia nem via seu corpo, nada nem ninguém. Percebeu uma atmosfera amarela, sem luz natural ou artificial, como se estivesse numa cúpula isolada. “Algo de muito errado aconteceu, será que eu morri? Ou me internaram? Como vim parar neste lugar?”
Foi acometida de um pavor negro, desses que enregelam a alma. Achou que o mundo tinha acabado, o mundo como ela conhecera. Ou estivesse presa em uma nave alienígena. Resolveu fechar os olhos, respirar fundo e se acalmar, dormir novamente e acordar desse pesadelo estranho. Aterrorizada, descobriu que não podia fechar os olhos, não havia olhos. Era como se olhasse através da lente de uma câmera. Morrera! Mas como? Lembrou-se de relatos que diziam que quando se acredita na vida após a morte, espíritos viriam guiar o ser em sua travessia, mas se se desesperasse, poderia ser vítima dos trevosos. Nunca acreditou nisso. A morte encerrava tudo. Será que a vida continuava mesmo após a morte? Não teve religião, mas acreditou na existência de um ser superior. Se aparecessem os luminosos, humildemente pediria ajuda. Ficar desse jeito, no limbo, não era uma boa escolha. Será que seus planos para a festa do velório ofenderam alguém da hierarquia celestial? Sabia que alguns povos festejavam a partida de seus queridos.
Esperou.
Nada.
Quando criança se perguntava por que era ela e não outra pessoa. Por que não podia estar em outro corpo e se ver por fora. Queria entender como tinha a consciência de ser quem era. Agora seria só consciência? Talvez fosse assim a manifestação do tal do espírito ou alma. Um eu sem corpo. Como saber se ainda era o eu que habitara o corpo de Teresinha? Leu em algum livro que, quando se morre, um filme de todos os atos se desenrola e o morto, transtornado, culpado, atolado até o pescoço de remorsos, é sentenciado por si mesmo. Será que o tal passado ia demorar a ser exibido?
Foi julgada há muito tempo, ainda jovem, impiedosamente, por pensar demais. Sua pena foi sofrer um extremo desprezo. Agora que perdera o eu corpo, o eu consciência estava condenado à só pensar?Não podia sentir, cheirar, chorar, andar, só pensar, pensar, pensar, mas o eu consciência tinha memórias ainda.
Ficou sem a festa de enterro. Planejou tudo inutilmente.
Recordou certa vez que entrara na enfermaria de um hospital. Eram dois quartos e todos os pacientes tinham o mesmo rosto. Descobriu, penalizada, que de um lado estavam os homens e do outro, as mulheres. Não tinham mais fisionomia. A desnutrição os igualara. Esqueletos recobertos por uma pele enrugada, sem recheio, esperando a morte chegar. Perguntou-se se ainda teriam lucidez, se suportavam estar dentro daquilo que um dia foi seu corpo. Como resistiam tanto tempo sendo só um saco de ossos? Pensou na ironia da existência. Muitas pessoas passam suas vidas fazendo dietas para emagrecer e outros, no fim da jornada, se tornam farrapos humanos, sem gordura, carne e dignidade. Ela se cuidou, fez exames regulares para controlar colesterol, glicemia. Lembrou de seu corpo. Tinha 50 anos, o tempo já se desenhava em si, mas suas carnes estavam lá. Nacos grandes recobrindo os ossos duros, sem osteoporose, ainda bonita. Sim, era uma mulher. Estava bem longe de ser como os zumbis internados naquele triste hospital. Não se lembrava de sua morte... Cremaram seu corpo? Recordava outros fatos, pessoas, a família, seus netos queridos... Nunca mais os veria. É estranho, mas não ter o eu corpo não produz emoções. Pensava e não sentia. Talvez fosse a falta do coração. Imaginou que várias horas haviam se passado. Não tinha referências, só o pensamento e a percepção daquela cor amarela, estática. Ficaria assim pra sempre? Imaginou se, sem novas experiências, pensaria só o já conhecido ou descobriria algo novo em sua consciência.
...
...
Ouviu algo. Seria possível?
Pensou no que ouviu. Aos poucos, foi decodificando, reconhecendo. Enlouquecera afinal.
-Estação terminal Luz
Elisabete Rodrigues Limeira
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Escravo do escrever
É se deixar penetrar por idéias e pensamentos. É relatar devaneios, carregar pedras que estão a enfeitar o caminho. É descrever o que há de mais sublime e subjetivo.
Sou escravo das palavras e o suor caído sobre o papel é o resultado do abuso sobre a minha carne. escrever é o meu cansaço e o meu ópio.
Trabalho árduo sem recompensas. Escrever é obvservar, e por assim ser, assumir ser um observador. A maior das gratificações seria a ignorância de não enxergar o mundo e sentir o alívio.
Ser escravo do escrever é respirar poeiras e almas das minhas criações. É devorá-las. É ser decifrado.
Escrever é estar nu, com febre, tossindo palavras, chorando palavras. Estar lambusado de frases e textos que irão me perturbar por anos. escrever é ter a punição so assoitamento pelo prazer de me ver sofrer.
Tento fugir em vão. Sou acorrentado à verbos. Escrever é não me permitir à liberdade, por mais que seja a única forma de tê-la.
E ao longe, ver um mundo. Ver suas flores e descreve-las como em um prisma, sabendo que as flores morrerão.
As flores morrerão, é fato, mas as minhas palavras não.
Marco Cavalcanti
Conversa de Criança
- Oi.
- Não é verdade que têm dois Jesus?
- Como assim?
- Ué!... Um no céu e outro no térreo.
- Deixa de ser bobo, moleque!...
- A senhora também é...
- Olhe o respeito comigo hem, garoto.
- É a senhora quem diz que seu cartão de crédito vive estourando, mas eu nunca ouvi o barulho.
- Engraçadinho!...
- Kassabinho?...
- Não mistura as coisas, eu disse engraçadinho!...
- Mas é que eu lembrei do sarfadana do prefeito...
- O que é isso menino!... Veja como fala, o prefeito é um homem de respeito.
- Homem de respeito uma pinóia!... Ele é um cabeção de biombo, é isso que é. Por que você votou no Kassabinho? A senhora não é criança.
- Mas, não foi você quem pediu?
- Ora! Eu pedi, mas a senhora e o papai não vivem dizendo que não é para fazer as vontades da gente que é pequeno?
- Sim, é verdade, mas nós achamos que você gostava tanto dele que resolvemos fazer seu gosto.
- Vocês são é muito burros.
- Mas por que você está falando isso, não gosta mais dele?
- Gosto do boneco, mas daquele palhaço, não.
- Que palhaço?
- O prefeito.
- Palhaço! O que ele fez?
- Ele não quer dá mais comida pra gente na hora do almoço. Que criança não precisa comer tanto assim, porque engorda.
- Ele disse isso?
- Disse e fez.
- Você não está mais comendo na escola?
- Só um merrequinha de nada. Que não dá nem para tapar o buraco do dente.
- Amanhã vou na sua escola ver o que está acontecendo...
- Vai nada, a senhora só vive escrevendo dentro do olho.
- Como escrevendo dentro do olho, menino? Você ta louco!
- Escrevendo, passando o lápis na beirado do olho, na frente do espelho, penca que eu não vejo não, é?!
-Ô, menino aquilo é maquiagem.
- Sei... Sei!... Deus tá vendo. Depois o doido sou eu.
Paulo Ferreira
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Ensaio sobre o por do sol
Na wikipédia, o por do sol é o momento em que o sol se oculta no horizonte na direção oeste que pode ser considerado como um processo inverso do nascer do sol que é quando o sol aparece no horizonte na direção leste. Ao período do dia em que ocorre o por do sol dá-se o nome de “ocaso”.
O referido fenômeno apresenta muitas características a serem estudadas, mas devo me ater a alguns aspectos, como segue:
1. a dinâmica das cores;
2. a fotografia do tempo;
3. a geografia das lembranças;
3.1 um país
4. ritos de sobrevivência
tópico 1 – a dinâmica das cores
as cores vibrantes amarelo laranja vermelho se juntam ao lilás e à ultima tonalidade do vermelho que é o roxo machucado e vão se mesclando em infinitas gradações até que a noite se instala - com o seu escuro de luzes urbanas, ou com o seu escuro de luz de candeeiro na mercearia da vila, ou com o sino anunciando a ave maria e os adolescentes saindo do colégio com os seus trinados peculiares numa cidadezinha qualquer.
tópico 2 – a fotografia do tempo
quando o roxo se torna roxo machucado voce sabe que esse é o último slide, é a ultima foto do fim.
Tópico 3 – a geografia das lembranças
neste tópico fiz várias descobertas em diversas fases da vida. Na infância, da calçada de casa, achava que o sol se escondia nas terras de meu avô; na adolescência, da varanda de casa, o sol se punha do outro lado da rua;
Na vida adulta em tres oportunidades de exílio doméstico, o sol era uma bola vermelha que brincava de esconde atras de prédios rosas e azuis que eu avistava da janela.
Tópico 3.1 – Um país
este é o tópico mais complexo, pois após observar o fenômeno de vários ângulos, localizado em diferentes lugares, constatei que ele também é um lugar, mais precisamente um país ou ainda seja mais certo definir como um não-lugar.
Tópico 4 – ritos de sobrevivência
Um Não-lugar de onde se pode ver a repetição dos dias, as pegadas do sol indo embora, marcando a passagem do tempo em sua suavidade e violência.
Conceição Bastos
De Volta às Palavras
Volto. Lá estão eles. Convidam-me à labuta. Paro. Penso. Sigo.
O que fazer?
Por diversas vezes tentei retomar meus escritos, mas existe um vazio em minha mente.
Ou não?
Parece que tenho tantas coisas para escrever e, ao tentarem sair de minha cabeça, todas ao mesmo tempo, encavalam-se com os tipos de uma máquina de escrever, datilografados simultaneamente.
O tempo urge. É necessário voltar a escrever.
Sento e, tomado de inspiração, começo. Estou de volta às palavras. Não sei se sentiram tantas saudades de mim quanto eu delas. Substantivos. Adjetivos. Pontos e virgulas. Concordância Nominal. Concordância Verbal. Grafar corretamente. Palavras. Palavras.
Estou em pane. Parece tão simples e fácil.
Há clareza em que escrevo?
Acho que abuso de eufemismos.
Não. Amasso o papel. O que pretendia mesmo contar? Que história esdrúxula. Inverossímil. É atemporal.
Meus leitores merecem algo melhor.
Animais, números, cores, sabores, odores.
Não. Não. Isso já foi contado milhares de vezes. Ou foram milhões.
Um lugar distante. Bem pra lá de Passargada. Sem reis e plebeus. O que acontece? Não sei. As palavras não me vem.
Outro lugar. A Lua. Isso: estou no mundo da lua.
Palavras. Palavras. Quero contar o que sinto. Talvez se relatasse meu último sonho. Aquele que esqueci ao contemplar a beleza dos primeiros raios de Sol.
Meu passeio de final de tarde. Ontem. A ida ao café. As pessoas que encontrei. Não. Alguém já falou disso. Acho que fui eu mesmo. Outro dia. Lembra-se. Era começo de noite e vocês aí parados.
Papel e lápis. Assim.
Quem sabe sonhei tudo isso.
Escrever é tão fácil. Basta pegar o lápis e fazê-lo deslizar pelo branco do papel. Cá estou eu. Nada.
Um crime passional. Isto. Somos todos movidos pela paixão. Posso descrever a bela jovem. O gracejo de seu sorriso e a provocação de seu olhar já seriam o motivo. A arma? Um papel e lápis. Ali parados. Convidando-me. Como o jovem cavalheiro que atravessa o salão para tirar a dama para dançar.
Não. Escrever é difícil. É necessário zelo. As palavras machucam. São afiadas como o bisturi que desliza com seu corte preciso.
Eu quero emoção com minhas palavras. Quero risos e lágrimas. Quero o amor da minha amada e o respeito do meu inimigo.
Elas devem sair tracejante como uma chuva de meteoritos e brilhantes como a aurora boreal.
Palavras. Palavras.
Escrever é apenas. Em papel. Com lápis, caneta ou bico de pena. Trazer em palavras a emoção não presente em mil imagens.
Sidnei Reinaldo dos Santos
ENSAIO SOBRE A EDUCAÇÃO
ENSAIO SOBRE A EDUCAÇÃO
Vivenciamos uma crise no sistema educacional brasileiro. Apesar de sua universalização, com a educação atingindo número de alunos em precedentes, a qualidade fica aquém de necessário para formar o cidadão pleno. A escola se transformou é um espaço de conflitos e os principais protagonistas - discentes e docentes – digladiam-se diariamente.
Poderíamos pensar que a postura passiva dos alunos fosse um comportamento “terceiro-mundista”, mas mesmo nos países desenvolvidos o conflito existe. O tema foi abordado no filme francês SOBRE OS MUROS DA ESCOLA 2008. Discorrer sobre o assunto não é tarefa fácil. Tendemos a ter um discurso panfletário. Mas vamos tentar pontuar alguns problemas que afligem, pais, educadores e, inclusive, alunos.
Raras vezes tivemos educadores como gestores-mores da educação. Historicamente, a educação tem sido tratada como palanque para catapultar políticos carreiristas. Os gestores-políticos jogam suas fichas em carreiras meteóricas. Apresentam fórmulas prontas, propostas por teóricos de gabinetes, sem prática docente, no intuito de resolver em um passe de mágicas, todos os problemas que se acumulam há décadas.
A cada nova gestão, novas tentativas que, em primeiro lugar anulam as vigentes desnorteando todos os envolvidos. Assim, o que era ruim, piora acentuadamente a cada novo governo, independente da esfera pública a qual nos dirijamos.
Estes novos planos não são discutidos com a comunidade escolar, com os educadores e seus representantes legalmente constituídos. Estão fadados ao insucesso e é só aguardar o próximo gestor e as próximas aventuras. A Educação (educadores e educandos) perdem neste jogo de interesses.
Orientado pelas propostas finais da Conferência Mundial de Educação Para Todos, realizada em 1990, na Tailândia, os países subdesenvolvidos colocam em prática medidas Neoliberais, reduzindo investimentos na educação. Superávit primário como reserva para honrar o pagamento da dívida externa consomem recursos.
Com a falta de recursos, cabe ao professor faz tudo “ser criativo” para resolver a falta de materiais em sala de aula. Criatividade passa a ser eufemismo de parcos recursos na educação.
Dentro das relações sociais, percebemos outros graves problemas no sistema educacional. Estamos entrando no que alguns pensadores já chamam de Era da Informática. Os aparelhos eletroeletrônicos estão presentes cada vez mais no nosso dia-a-dia. A modernidade traz benefícios, mas ainda não sabemos como conviver com ela.
A criança moderna é educada pela televisão. Os pais estão ausentes, no trabalho, para garantir recursos que irão prover a família ou em busca dele. Outros, menos instáveis psicologicamente, vagueiam por bares, bingos, etc., onde afogam as suas magoas de uma vida infeliz. Quando desempregados, vivem de políticas assistencialistas (Bolsa Família, Leve Leite, etc.) que governos criam para manter o status quo. Seu amor pelos filhos - o qual tenho certeza que existe - não é externado, já que não está na moda.
Ciente disso, um Gestor chegou a propor a Pedagogia do Afeto, para que professores suprissem o amor ausente para as crianças e adolescentes em casa. O professor pai-mãe iria ter uma relação fraternal e estaria resolvido o problema. Lógico que este não é o único empecilho para que se complete o processo ensino-aprendizagem e não deu certo.
Outro fator é a falta de perspectivas para o futuro próximo. A criança e o adolescente são inteligentes - cabe lembrar que inteligência não está necessariamente associada com o acúmulo de informações e a habilidade em ler e escrever - e vêem os exemplos na mídia (políticos corruptos e nepóticos, uso do corpo para enriquecer - modelos nuas, dançarinas seminuas, apresentadoras infantis com shorts minúsculos - futebolistas habilidosos, instrumentistas nem tanto, tráfico, etc.) de pessoas que não estudaram e se dão bem na vida e os contrários: graduados que não se empregam ou vivem do subemprego.
Ou seja, a mídia mostra o sucesso de alguns. E na sociedade capitalista sucesso está associado a acúmulo de riqueza. E o conhecimento não será, na perspectiva dele, riqueza se não puder ser transformado em dinheiro, bens de consumo, etc. o indivíduo é valorizado pelo que tem ou aparenta ter e não por aquilo que ele realmente é.
O lema “é melhor viver 10 anos a 100 por hora do que 100 anos a 10 por hora”, é o exemplo claro do imediatismo que crianças, adolescentes e jovens almejam. Vida loka e o barato é loko e o processo é lento são bordões repetidos à exaustão pelos jovens da periferia e, hoje, repetidos pelos filhos da classe dominante que ocupam os bancos escolares de colégios particulares.
O estudante perdeu o referencial do que é “estudar”. Estar na sala de aula e copiar algo é o seu limite. O sinal de interrupção da aula é o ponto final. O que copiava, para. O que escutava, cala-se. Nada mais existe. Aquilo é deletado de sua mente, indo para uma lixeira psico-virtual. Poucos têm a prática de se preparar para as argüições e avaliações na escola. Preparar-se para uma prova, rouba-lhe precioso minuto da vida. Afinal estudar para quê? Tirar boa nota para quê? Aprender para quê?
Ler então. Exige atenção, concentração, mais perda de tempo. O romance de tantas páginas pode ser compreendido a partir da sinopse existente na Internet ou do filme alugado na locadora.
A escola, aparelho ideológico, cumpre o seu papel. Seus muros “prendem” os alunos, mantendo-os longe dos acontecimentos e alienando-os. Como eles não entendem que quem detem conhecimento detem o poder, acabam subjugados, dominados, explorados.
No que se refere aos investimento, o dinheiro gasto em educação é pouco (2,4% do Produto Interno Bruto, em 2008). Além disso, os gastos são errados. Interesses escusos vem
Exemplo: no início de 2009 o governo de São Paulo imprimiu centenas de milhares de apostilas para servirem de apoio às aulas (na realidade são para serem seguidas à risca, com cobrança da coordenação, direção, supervisão) com a de geografia contendo mapas errados (América do Sul com dois Paraguais e sem o Equador).
Dinheiro para o ralo.
Cabe pensar: por que imprimir apostilas para apoio, quando há o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) que garante a todos os estudantes do país livros que servirão de apoio às aulas Quem lucrou com o uso de tal verba pública?
Com relação aos docentes. Não podemos negar que alguns são descompromissados. Utilizam a política do holerite. Ou seja: não cobram dos alunos, vivendo uma situação de camaradagem. Os alunos concordam em ficarem quietos para não chamar a atenção e, em alguns casos, recebem a resposta das atividades. Tudo num céu de brigadeiro. Ninguém se estressa.
Mas a grande maioria, compromissada, adoece em sala de aula. Estudos já apontam a existência de uma doença, a Síndrome de Burn-out, que atinge professores em atividade docente. Desvalorizado em sua carreira profissional e tratado como inimigo por aqueles que precisam do conhecimento e experiência adquirida em anos com os pés no chão da sala de aula; tratado como inimigo pelos governantes que os culpam pelo mau desempenho dos alunos; tratado como inimigo pelos pais que não entendem (e nem querem) por que o seu filho ainda não desenvolveu uma habilidade que possa enriquecê-lo e consequentemente à família; tratado como inimigo pela mídia, possuidora de contratos milionários com os governos de plantão.
A sala dos professores o patíbulo. Todos reclamam de suas angústias e sonham em mudar de profissão. O vício ao giz ou a falta de atitude os deixam décadas neste sofrimento.
A educação é pensada para que não dê certo. Um povo consciente é um povo que não será ludibriado tão facilmente. Conhecedor de seus direitos e cumpridor dos deveres lutará sempre por uma sociedade melhor. Quem detém o poder pode se sentir ameaçado.
A sala de aula: um grupo heterogêneo de crianças-adolescentes - meninos e meninas, brancos e negros, magros e gordos, baixos e altos, alimentados e famintos - que copiam tudo o que podem. Não produzem, somente reproduzem, e, por hábito, as respostas aos exercícios são copiar daqui . . . até aqui.
Não se identificam com os colegas ou com a escola. Há um estranhamento constante. Parecem querer demarcar o território (as marcas na parede e nas carteiras, a sujeira em torno de sua carteira, o falar alto, etc.), numa atitude animalesca.
O corredor e o refeitório são transformados em campos de batalha. A comida e o material escolar, as armas.
O exemplo da escola estadual da Zona Leste de São Paulo, em que os alunos “se rebelaram” e arremessaram carteiras e cadeiras janela abaixo, é um exemplo claro do que pode acontecer em uma escola. Foi necessária a intervenção da Polícia Militar.
Resumindo: a escola passou a ser um depósito de pessoas, individualistas e consumistas, com pouco amor próprio e recebido, de grades altas, cuidadas ora por pessoas sem compromisso, ora por pessoas sem auto-estima, pagas com o que sobra do dinheiro público (o restante foi desviado ou mal aplicado). As crianças circulam como em um shopping torcendo para dar a hora de ir para casa, para fazer qualquer coisa.
Como entendermos que, ao final das contas, a criança/adolescente cresça, arrume uma ocupação, construa família e siga esta roda viva. A responsabilidade vem ao longo da vida. A escola é importante, mas sofre ataques há décadas. Precisamos colocar a escola no centro dos debates. Toda a educação - recursos físicos, recursos humanos – precisa passar por uma reformulação. Consultar os profissionais da educação seria a saída mais lógica. Pena a decisão surgirá distante do espaço escolar, como “a mais eficaz reforma educacional de todos os tempos”. E tudo continuará exatamente igual.
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
Ensaio sobre a paixão
Que o ser humano não vive sem paixão, isso eu não tenho a menor dúvida, viver no sentido amplo da palavra. A paixão nos impulsiona, nos tira do lugar comum, nos dá um brilho diferente ao olhar. Sei que existem paixões que jamais se acabam, por exemplo: minha paixão pela escrita, pela arte, pelos filhos e assim por diante. Só que às vezes vivemos ignorando nossas paixões, a ponto de nos sentirmos mortos, só procurando estes sentimentos dentro de nós é que acordamos para a vida. Mas gostaria de enforcar a paixão entre pessoas, a que nos envolve e nos alucina quando menos esperamos. A sociedade quer aprisionar o ser e a partir daí a promessa de fidelidade eterna. Como se pode ter garantia da não paixão. A química do cérebro pede para que o coração enlouqueça? Como dominar este sentimento que se apodera da alma, se apodera do corpo, fazendo com que as pessoas até mudem de planeta. Temos a necessidade da renovação de sentimentos para nos mantermos vivos? Até quando é saudável a repressão? Até que a morte nos separe, ou até que o cérebro resolva jogar a química para o corpo para que as células fiquem latentes. De repente o ar muda, a cabeça fica zonza, pula-se obstáculo, cerca, corda, a alegria é absurda, perde-se o tino e é hora de sonhar, é hora de viver, é hora de se entregar. Não, quase sempre nos negamos esse direito, as mulheres são as mais castradas, enquanto que os homens parecem poder tudo, porque a paixão está ligada também ao sexo. Afinal, precisam preservar a espécie, são os machos... E a sexualidade das mulheres? Elas são realmente diferentes ou disfarçam os sentimentos? Disfarçam sentimentos... A mulher tem contas a pagar apenas com a evolução de sua alma, de sua existência, de sua responsabilidade humana perante a vida. A paixão gera sofrimentos e às vezes a dor alucina. Como evitar a dor da paixão? Não se apaixonando? E é possível não se apaixonar? Como evitar a dor? Não, não é possível não se apaixonar...
Solange Rossignoli 06.10.2009