terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Forro de Cetim

Foi no dia seguinte ao feriado de Tiradentes que Teresinha começou a planejar sua última festa. Detestava o calor, não pensava direito em dias muito quentes, mas aquele não era um dia comum. Ia enterrar a única tia com a qual conviveu. Gostara muito dela e tudo acabava tão de repente. Na verdade, ela já estava acamada há meses. Por causa da má vontade dos médicos em fazer o atestado de óbito, Tia passou toda a noite no IML, sozinha, esperando o início do dia para saber por que morrera. Por que faleceu num feriado? Restava apenas duas horas para o enterro e nada do corpo chegar. Foi com a Filha e a Mãe escolher o caixão. Eram urnas simples, mas com cruzes ou o Espírito Santo entalhados na tampa. Como não tinha religião, comentou com a Filha que, quando morresse, não queria ser enterrada numa urna como aquela. Queria um caixão como aqueles que conhecera em sua infância. Eram forrados com tecidos em diversas cores. Para crianças, cores pastéis; para adultos, branco, preto ou roxo. Disse à Filha que iria comprar cetim roxo e guardar para que ela forrasse seu último leito. A Mãe contou várias vezes que a sua mãe, a adorada Vó Chiquita, costurou com suas próprias mãos, uma mortalha para ser enterrada. Era o costume dos antigos, então Teresinha achou que poderia decidir a cor de seu caixão. Mortos não decidem e Teresinha queria escolher como ir embora... Devanear amenizava um pouco a dor da perda.
Naquele momento não teve a real dimensão que o plano tomaria. A Filha prometera para não chatear a mãe e seguiram para o velório. Desceram por entre os túmulos e Teresinha viu muitas baratas saindo das rachaduras de algumas lápides. Na hora, não pensou a respeito. Aquela visão, porém, ficou guardada em algum compartimento de sua cabeça, secretamente esperando para vir à tona.
No dia seguinte ao enterro, Serapião, seu pai, contratou um plano funerário para a família. Queria assegurar conforto numa hora tão dolorosa. Ficou contrariada a princípio, pois tanto os pais quanto ela e seus irmãos possuíam necessidades mais urgentes. Aos poucos, conformou-se com a idéia e ligou para a empresa para saber se poderia escolher o caixão em vida e forrar com tecido de sua escolha. A atendente disse que sim e ela ficou feliz.
Lembrou-se de quando começou sua paixão por aquela cor tão incomum. Aos cinco anos, fez amizade com Denise. Ela morava do outro lado da rua, ao lado da padaria da Da. Lourdes. A casa de Denise ficava nos fundos do comércio de seu pai. Era uma loja funerária e os caixões eram feitos ali. As meninas brincavam de esconde-esconde dentro das urnas. Apaixonou-se pelo cheiro da madeira e pelo lilás forte usado para o revestimento dos caixões.
Deixou de ir lá brincar quando conheceu a morte pela primeira vez. Seu amigo, Zé Carlos, caiu na sarjeta, foi atropelado e faleceu. Ele era filho do coveiro e o Cemitério das Lágrimas ainda não havia recebido ninguém. Teresinha sempre ia com Zezinho levar o almoço para o pai dele. Achava o local um jardim mágico, com todos os matizes de cores das flores e borboletas. Triste, foi a todas as casas com jardim pedir flores para homenagear o Zé. Como moravam perto e eram pobres, o cortejo seguiu a pé até o cemitério. Todo o trajeto foi feito num silêncio insuportável, tanto quanto a dor de todas as pessoas ali presentes. Seu amigo inaugurou o cemitério num belo dia de sol. Ela perguntou a Deus se ele não poderia levar alguém já idoso, por que o Zé, tão jovem? O tempo se encarregou de curar seu espírito. Não há idade para a morte e esta era a única certeza que Teresinha tinha na vida: iria morrer.
Sua paixão pelo lilás continuou, mas não era uma cor fácil de ser vista. Muitos anos se passaram até que ela pudesse encontrar roupas roxas. Quando a cor entrou na moda, tratou logo de comprar tudo o que podia: roupas, cortinas, colchas, lençóis. Pintou as paredes dos quartos num tom lilás mais claro. Adquiriu também bolsas, maquiagem, sapatos, bijuterias. Quando alguém fazia algum comentário, dizia que seu gosto por essa cor já se tornara patológico. Era impossível resistir.
Num dia em que a gozação foi mais intensa que o normal, lembrou do pedido feito à Filha. Quis dar o troco. Então, divertida, contou seu plano de forrar até seu caixão de roxo. Os queixos caíram. Deliciada por conseguir chocar a todos, disse que seu velório seria uma grande festa. Informou que já pedira à sua filha para comprar pizzas, de vários sabores, pão sírio com zattar e azeite, sucos e refrigerantes, sorvete, brigadeiro. Queria que todos se divertissem e comessem à vontade, nada de choradeiras. Muita música alegre para que pudessem dançar.
A partir desse dia, voltava sempre a pensar em seu velório. Não que achasse que fosse morrer logo, estava bem saudável. Seu desejo era apenas deixar tudo bem planejado com antecedência e seus filhos cientes. Precisava comprar o tecido. Numa dessas noites de calor em que as baratas entram em casa voando, lembrou-se com terror das baratas que saíam dos túmulos.
-Quero ser cremada! As baratas vão entrar no caixão!
Disse ao Filho sua decisão. Ele, não sabendo do seu plano, ficou mudo de espanto.
- Quero que toquem o Concerto de Brandenburgo, de Bach, com a Orquestra de Berlim. Tocata e Fuga também. Joguem as cinzas nos lugares de que eu mais gosto: no Horto Florestal de Campos de Jordão, no Riacho das Trutas sem trutas e um pouco na praia de Barra de Una, após a meia-noite, numa noite com muitas estrelas. Chamem a Lu para cantar na praia. Escreverei como desejo tudo e entregarei para a Filha. Crisântemos têm cheiro de defunto, talvez flores sem perfume, folhas de cedrinho embaixo do corpo. Não quero que me coloquem sapatos, acho que quebram os pés para calçar.
Teresinha não teve sua vida tão bem planejada. Fatos aconteceram sem que pudesse decidir, nem mudá-los. Se pudesse voltar no tempo, faria diferente tantas coisas... Bem, como o passado é imutável, pelo menos o velório já estava decidido. Até lá, viveria muito ainda e tinha vários projetos em mente. Não conhecia a Biblioteca Nacional, nunca viajou de avião, tinha de ir até Bueno Aires comprar lã e doce de leite. Precisava se mudar da casa alugada em que morava... Foi dormir resolvida a ir até a imobiliária.
Acordou assustada. Não sabia onde estava, não podia se mover. Estaria sonhando ainda? Não sentia nem via seu corpo, nada nem ninguém. Percebeu uma atmosfera amarela, sem luz natural ou artificial, como se estivesse numa cúpula isolada. “Algo de muito errado aconteceu, será que eu morri? Ou me internaram? Como vim parar neste lugar?”
Foi acometida de um pavor negro, desses que enregelam a alma. Achou que o mundo tinha acabado, o mundo como ela conhecera. Ou estivesse presa em uma nave alienígena. Resolveu fechar os olhos, respirar fundo e se acalmar, dormir novamente e acordar desse pesadelo estranho. Aterrorizada, descobriu que não podia fechar os olhos, não havia olhos. Era como se olhasse através da lente de uma câmera. Morrera! Mas como? Lembrou-se de relatos que diziam que quando se acredita na vida após a morte, espíritos viriam guiar o ser em sua travessia, mas se se desesperasse, poderia ser vítima dos trevosos. Nunca acreditou nisso. A morte encerrava tudo. Será que a vida continuava mesmo após a morte? Não teve religião, mas acreditou na existência de um ser superior. Se aparecessem os luminosos, humildemente pediria ajuda. Ficar desse jeito, no limbo, não era uma boa escolha. Será que seus planos para a festa do velório ofenderam alguém da hierarquia celestial? Sabia que alguns povos festejavam a partida de seus queridos.
Esperou.
Nada.
Quando criança se perguntava por que era ela e não outra pessoa. Por que não podia estar em outro corpo e se ver por fora. Queria entender como tinha a consciência de ser quem era. Agora seria só consciência? Talvez fosse assim a manifestação do tal do espírito ou alma. Um eu sem corpo. Como saber se ainda era o eu que habitara o corpo de Teresinha? Leu em algum livro que, quando se morre, um filme de todos os atos se desenrola e o morto, transtornado, culpado, atolado até o pescoço de remorsos, é sentenciado por si mesmo. Será que o tal passado ia demorar a ser exibido?
Foi julgada há muito tempo, ainda jovem, impiedosamente, por pensar demais. Sua pena foi sofrer um extremo desprezo. Agora que perdera o eu corpo, o eu consciência estava condenado à só pensar?Não podia sentir, cheirar, chorar, andar, só pensar, pensar, pensar, mas o eu consciência tinha memórias ainda.
Ficou sem a festa de enterro. Planejou tudo inutilmente.
Recordou certa vez que entrara na enfermaria de um hospital. Eram dois quartos e todos os pacientes tinham o mesmo rosto. Descobriu, penalizada, que de um lado estavam os homens e do outro, as mulheres. Não tinham mais fisionomia. A desnutrição os igualara. Esqueletos recobertos por uma pele enrugada, sem recheio, esperando a morte chegar. Perguntou-se se ainda teriam lucidez, se suportavam estar dentro daquilo que um dia foi seu corpo. Como resistiam tanto tempo sendo só um saco de ossos? Pensou na ironia da existência. Muitas pessoas passam suas vidas fazendo dietas para emagrecer e outros, no fim da jornada, se tornam farrapos humanos, sem gordura, carne e dignidade. Ela se cuidou, fez exames regulares para controlar colesterol, glicemia. Lembrou de seu corpo. Tinha 50 anos, o tempo já se desenhava em si, mas suas carnes estavam lá. Nacos grandes recobrindo os ossos duros, sem osteoporose, ainda bonita. Sim, era uma mulher. Estava bem longe de ser como os zumbis internados naquele triste hospital. Não se lembrava de sua morte... Cremaram seu corpo? Recordava outros fatos, pessoas, a família, seus netos queridos... Nunca mais os veria. É estranho, mas não ter o eu corpo não produz emoções. Pensava e não sentia. Talvez fosse a falta do coração. Imaginou que várias horas haviam se passado. Não tinha referências, só o pensamento e a percepção daquela cor amarela, estática. Ficaria assim pra sempre? Imaginou se, sem novas experiências, pensaria só o já conhecido ou descobriria algo novo em sua consciência.
...
...
Ouviu algo. Seria possível?
Pensou no que ouviu. Aos poucos, foi decodificando, reconhecendo. Enlouquecera afinal.
-Estação terminal Luz

Elisabete Rodrigues Limeira