quinta-feira, 15 de outubro de 2009

ENSAIO SOBRE A EDUCAÇÃO

ENSAIO SOBRE A EDUCAÇÃO

Vivenciamos uma crise no sistema educacional brasileiro. Apesar de sua universalização, com a educação atingindo número de alunos em precedentes, a qualidade fica aquém de necessário para formar o cidadão pleno. A escola se transformou é um espaço de conflitos e os principais protagonistas - discentes e docentes – digladiam-se diariamente.

Poderíamos pensar que a postura passiva dos alunos fosse um comportamento “terceiro-mundista”, mas mesmo nos países desenvolvidos o conflito existe. O tema foi abordado no filme francês SOBRE OS MUROS DA ESCOLA 2008. Discorrer sobre o assunto não é tarefa fácil. Tendemos a ter um discurso panfletário. Mas vamos tentar pontuar alguns problemas que afligem, pais, educadores e, inclusive, alunos.

Raras vezes tivemos educadores como gestores-mores da educação. Historicamente, a educação tem sido tratada como palanque para catapultar políticos carreiristas. Os gestores-políticos jogam suas fichas em carreiras meteóricas. Apresentam fórmulas prontas, propostas por teóricos de gabinetes, sem prática docente, no intuito de resolver em um passe de mágicas, todos os problemas que se acumulam há décadas.

A cada nova gestão, novas tentativas que, em primeiro lugar anulam as vigentes desnorteando todos os envolvidos. Assim, o que era ruim, piora acentuadamente a cada novo governo, independente da esfera pública a qual nos dirijamos.

Estes novos planos não são discutidos com a comunidade escolar, com os educadores e seus representantes legalmente constituídos. Estão fadados ao insucesso e é só aguardar o próximo gestor e as próximas aventuras. A Educação (educadores e educandos) perdem neste jogo de interesses.

Orientado pelas propostas finais da Conferência Mundial de Educação Para Todos, realizada em 1990, na Tailândia, os países subdesenvolvidos colocam em prática medidas Neoliberais, reduzindo investimentos na educação. Superávit primário como reserva para honrar o pagamento da dívida externa consomem recursos.

Com a falta de recursos, cabe ao professor faz tudo “ser criativo” para resolver a falta de materiais em sala de aula. Criatividade passa a ser eufemismo de parcos recursos na educação.

Dentro das relações sociais, percebemos outros graves problemas no sistema educacional. Estamos entrando no que alguns pensadores já chamam de Era da Informática. Os aparelhos eletroeletrônicos estão presentes cada vez mais no nosso dia-a-dia. A modernidade traz benefícios, mas ainda não sabemos como conviver com ela.

A criança moderna é educada pela televisão. Os pais estão ausentes, no trabalho, para garantir recursos que irão prover a família ou em busca dele. Outros, menos instáveis psicologicamente, vagueiam por bares, bingos, etc., onde afogam as suas magoas de uma vida infeliz. Quando desempregados, vivem de políticas assistencialistas (Bolsa Família, Leve Leite, etc.) que governos criam para manter o status quo. Seu amor pelos filhos - o qual tenho certeza que existe - não é externado, já que não está na moda.

Ciente disso, um Gestor chegou a propor a Pedagogia do Afeto, para que professores suprissem o amor ausente para as crianças e adolescentes em casa. O professor pai-mãe iria ter uma relação fraternal e estaria resolvido o problema. Lógico que este não é o único empecilho para que se complete o processo ensino-aprendizagem e não deu certo.

Outro fator é a falta de perspectivas para o futuro próximo. A criança e o adolescente são inteligentes - cabe lembrar que inteligência não está necessariamente associada com o acúmulo de informações e a habilidade em ler e escrever - e vêem os exemplos na mídia (políticos corruptos e nepóticos, uso do corpo para enriquecer - modelos nuas, dançarinas seminuas, apresentadoras infantis com shorts minúsculos - futebolistas habilidosos, instrumentistas nem tanto, tráfico, etc.) de pessoas que não estudaram e se dão bem na vida e os contrários: graduados que não se empregam ou vivem do subemprego.

Ou seja, a mídia mostra o sucesso de alguns. E na sociedade capitalista sucesso está associado a acúmulo de riqueza. E o conhecimento não será, na perspectiva dele, riqueza se não puder ser transformado em dinheiro, bens de consumo, etc. o indivíduo é valorizado pelo que tem ou aparenta ter e não por aquilo que ele realmente é.

O lema “é melhor viver 10 anos a 100 por hora do que 100 anos a 10 por hora”, é o exemplo claro do imediatismo que crianças, adolescentes e jovens almejam. Vida loka e o barato é loko e o processo é lento são bordões repetidos à exaustão pelos jovens da periferia e, hoje, repetidos pelos filhos da classe dominante que ocupam os bancos escolares de colégios particulares.

O estudante perdeu o referencial do que é “estudar”. Estar na sala de aula e copiar algo é o seu limite. O sinal de interrupção da aula é o ponto final. O que copiava, para. O que escutava, cala-se. Nada mais existe. Aquilo é deletado de sua mente, indo para uma lixeira psico-virtual. Poucos têm a prática de se preparar para as argüições e avaliações na escola. Preparar-se para uma prova, rouba-lhe precioso minuto da vida. Afinal estudar para quê? Tirar boa nota para quê? Aprender para quê?

Ler então. Exige atenção, concentração, mais perda de tempo. O romance de tantas páginas pode ser compreendido a partir da sinopse existente na Internet ou do filme alugado na locadora.

A escola, aparelho ideológico, cumpre o seu papel. Seus muros “prendem” os alunos, mantendo-os longe dos acontecimentos e alienando-os. Como eles não entendem que quem detem conhecimento detem o poder, acabam subjugados, dominados, explorados.

No que se refere aos investimento, o dinheiro gasto em educação é pouco (2,4% do Produto Interno Bruto, em 2008). Além disso, os gastos são errados. Interesses escusos vem

Exemplo: no início de 2009 o governo de São Paulo imprimiu centenas de milhares de apostilas para servirem de apoio às aulas (na realidade são para serem seguidas à risca, com cobrança da coordenação, direção, supervisão) com a de geografia contendo mapas errados (América do Sul com dois Paraguais e sem o Equador).

Dinheiro para o ralo.

Cabe pensar: por que imprimir apostilas para apoio, quando há o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) que garante a todos os estudantes do país livros que servirão de apoio às aulas Quem lucrou com o uso de tal verba pública?

Com relação aos docentes. Não podemos negar que alguns são descompromissados. Utilizam a política do holerite. Ou seja: não cobram dos alunos, vivendo uma situação de camaradagem. Os alunos concordam em ficarem quietos para não chamar a atenção e, em alguns casos, recebem a resposta das atividades. Tudo num céu de brigadeiro. Ninguém se estressa.

Mas a grande maioria, compromissada, adoece em sala de aula. Estudos já apontam a existência de uma doença, a Síndrome de Burn-out, que atinge professores em atividade docente. Desvalorizado em sua carreira profissional e tratado como inimigo por aqueles que precisam do conhecimento e experiência adquirida em anos com os pés no chão da sala de aula; tratado como inimigo pelos governantes que os culpam pelo mau desempenho dos alunos; tratado como inimigo pelos pais que não entendem (e nem querem) por que o seu filho ainda não desenvolveu uma habilidade que possa enriquecê-lo e consequentemente à família; tratado como inimigo pela mídia, possuidora de contratos milionários com os governos de plantão.

A sala dos professores o patíbulo. Todos reclamam de suas angústias e sonham em mudar de profissão. O vício ao giz ou a falta de atitude os deixam décadas neste sofrimento.

A educação é pensada para que não dê certo. Um povo consciente é um povo que não será ludibriado tão facilmente. Conhecedor de seus direitos e cumpridor dos deveres lutará sempre por uma sociedade melhor. Quem detém o poder pode se sentir ameaçado.

A sala de aula: um grupo heterogêneo de crianças-adolescentes - meninos e meninas, brancos e negros, magros e gordos, baixos e altos, alimentados e famintos - que copiam tudo o que podem. Não produzem, somente reproduzem, e, por hábito, as respostas aos exercícios são copiar daqui . . . até aqui.

Não se identificam com os colegas ou com a escola. Há um estranhamento constante. Parecem querer demarcar o território (as marcas na parede e nas carteiras, a sujeira em torno de sua carteira, o falar alto, etc.), numa atitude animalesca.

O corredor e o refeitório são transformados em campos de batalha. A comida e o material escolar, as armas.

O exemplo da escola estadual da Zona Leste de São Paulo, em que os alunos “se rebelaram” e arremessaram carteiras e cadeiras janela abaixo, é um exemplo claro do que pode acontecer em uma escola. Foi necessária a intervenção da Polícia Militar.

Resumindo: a escola passou a ser um depósito de pessoas, individualistas e consumistas, com pouco amor próprio e recebido, de grades altas, cuidadas ora por pessoas sem compromisso, ora por pessoas sem auto-estima, pagas com o que sobra do dinheiro público (o restante foi desviado ou mal aplicado). As crianças circulam como em um shopping torcendo para dar a hora de ir para casa, para fazer qualquer coisa.

Como entendermos que, ao final das contas, a criança/adolescente cresça, arrume uma ocupação, construa família e siga esta roda viva. A responsabilidade vem ao longo da vida. A escola é importante, mas sofre ataques há décadas. Precisamos colocar a escola no centro dos debates. Toda a educação - recursos físicos, recursos humanos – precisa passar por uma reformulação. Consultar os profissionais da educação seria a saída mais lógica. Pena a decisão surgirá distante do espaço escolar, como “a mais eficaz reforma educacional de todos os tempos”. E tudo continuará exatamente igual.

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