- Mãe!...
- Oi.
- Não é verdade que têm dois Jesus?
- Como assim?
- Ué!... Um no céu e outro no térreo.
- Deixa de ser bobo, moleque!...
- A senhora também é...
- Olhe o respeito comigo hem, garoto.
- É a senhora quem diz que seu cartão de crédito vive estourando, mas eu nunca ouvi o barulho.
- Engraçadinho!...
- Kassabinho?...
- Não mistura as coisas, eu disse engraçadinho!...
- Mas é que eu lembrei do sarfadana do prefeito...
- O que é isso menino!... Veja como fala, o prefeito é um homem de respeito.
- Homem de respeito uma pinóia!... Ele é um cabeção de biombo, é isso que é. Por que você votou no Kassabinho? A senhora não é criança.
- Mas, não foi você quem pediu?
- Ora! Eu pedi, mas a senhora e o papai não vivem dizendo que não é para fazer as vontades da gente que é pequeno?
- Sim, é verdade, mas nós achamos que você gostava tanto dele que resolvemos fazer seu gosto.
- Vocês são é muito burros.
- Mas por que você está falando isso, não gosta mais dele?
- Gosto do boneco, mas daquele palhaço, não.
- Que palhaço?
- O prefeito.
- Palhaço! O que ele fez?
- Ele não quer dá mais comida pra gente na hora do almoço. Que criança não precisa comer tanto assim, porque engorda.
- Ele disse isso?
- Disse e fez.
- Você não está mais comendo na escola?
- Só um merrequinha de nada. Que não dá nem para tapar o buraco do dente.
- Amanhã vou na sua escola ver o que está acontecendo...
- Vai nada, a senhora só vive escrevendo dentro do olho.
- Como escrevendo dentro do olho, menino? Você ta louco!
- Escrevendo, passando o lápis na beirado do olho, na frente do espelho, penca que eu não vejo não, é?!
-Ô, menino aquilo é maquiagem.
- Sei... Sei!... Deus tá vendo. Depois o doido sou eu.
Paulo Ferreira
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
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