quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O que penso e o pensamento dos outros (Ensaio?)

Pensadores deixam seu legado a quem interessar possa. A gente examina e assimila, ou rejeita. Faz tempo que abandonei o hábito de avaliar as coisas e separá-las em dois arquivos, as certas e as erradas, porque entendi (aqui na minha maneira de ver), que isso não existe. Sei que existe para a maior parte das pessoas, e respeito, mas isso foi desprogramado do meu sistema, acho que por desuso. Hoje assimilo o que me falta para continuar construindo meu caminho e apago, o que não me serve.

Provocar é induzir ao erro. Ao erro de responder, de debater e argumentar, tentar infiltrar uma idéia na cabeça de alguém, querendo que esse alguém veja as coisas como você vê. Isso é uma bobagem. Você diz o que pensa e quem toma conhecimento das suas avaliações, afina-se com elas ou não, compartilha com você ou não, acompanha sua trilha ou não. Ninguém convence ninguém de nada.

Quem têm convicção de suas idéias, não as debate, nem têm necessidade de defendê-las. A busca pelo debate é um impulso causado pela incerteza, pela necessidade de afirmação de algo a cerca do que não se tem muita convicção, é um impulso movido pela inquietação da dúvida.

Exceção ao debate socrático. Este é o único debate que tem como base a dúvida consciente, a certeza de que nada se sabe, e o desejo de elaborar junto com o grupo escolhido algumas conjeturas. Essas conjeturas são apresentadas quase como um pedido de "convença-me do contrário", "desconstrua minha idéia", "apresente-me o seu ponto de vista"... Porque é o ponto de vista do outro o que me falta para que eu possa conhecer melhor o que há em volta. Um exercício de elaboração participativa, entre pessoas convidadas a dar sua contribuição para elaboração de algo maior do que apenas uma opinião. Os adeptos de Sócrates eram convidados a emprestar seus olhos para que todos pudessem ver através dos olhos uns dos outros e assim poder crescer. Coisa elegante, generosa e afetiva, movida pelo respeito e pela admiração daquilo que se opõe a mim, que é diferente de mim, o outro, o próximo, ou seja, tudo o que não sou eu.

Perde quem tenta transformar algo tão precioso, que é o outro, o diferente, o que não está contido em mim, o complementar, o que ainda me falta, em uma réplica do conhecido, do manjado, do mastigado e digerido, um clone do eu. Este não cresce, não rompe suas limitações, não ultrapassa fronteiras e morre enterrado no próprio umbigo, não desperta, não vive.

Paulo Luís – Oficina Tantas Letras - Outubro de 2009

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