“Todo homem, por natureza, deseja conhecer”, esta frase atribuída a Aristóteles, me faz pensar sobre este desejo e mais ainda sobre a possibilidade e os procedimentos mentais ou sensoriais que nos fazem conhecer.
Os filósofos da antiguidade partiram da pergunta “o que é?” e esta atitude nos conduziu a diversos postulados filosóficos sobre como o conhecimento é possível ao homem. Heráclito de Éfeso fala do fluxo perpétuo, a constante transformação de todas as coisas e o problema: é possível saber alguma coisa? Se ao procurar conhecer o quer que seja este mesmo objeto do conhecimento já terá se transformado em outra qualquer coisa no instante seguinte? Um trajeto entre a realidade oferecida pelos sentidos e a apreensão pelo pensamento. O movimento, o fluir constante do universo e ao fim o produto disto não é conhecimento, porque a coisa já é outra. Então não é possível conhecer!
Demócrito de Abdera que desenvolveu a teoria do atomismo, diz que os seres são compostos e se constituem pelos arranjos e combinações entre partículas e nossa percepção ou apreensão da realidade é fruto da leitura que os órgãos fazem dos átomos, assim, o conhecimento sensível é tão real quanto aquele que o pensamento pode alcançar. O que captamos é precisamente a realidade.
Diriam os sofistas que todas as coisas são ou não são em virtude de como as percebemos ou mais: de como as interpretamos, considerando não existir um único princípio que a tudo comandasse apenas convenções estabelecidas pelos homens, uma sociologia do conhecimento talvez. As virtudes e as verdades eram entendidas como instáveis e fruto da conveniência e relatividade, um barco à deriva. Sócrates, no entanto, visou alcançar algo muito precioso e preciso: passar da multiplicidade de opiniões contrárias, de aparência opostas, de percepções divergentes à unidade da idéia, para ele era possível chegar a aletheia (verdade).
Em princípio a questão colocada é se haveria uma verdade última e se seria possível e que modo chegaríamos a ela, visto que o mundo que se nos apresenta entra em nós pela malha de nossos sentidos os quais nem sempre são precisos e estas imagens, estas percepções seriam decantadas pelo intelecto. Sobre isto concordaria Descartes para o qual “Nada existe.” e, na inexistência de todas as coisas, incluem-se os sentidos, toda a extensão que se apresenta por meio deles poderá ser apenas uma ficção do espírito, ou seja, aquilo que percebemos não existe necessariamente. O método de Descartes desvaloriza os sentidos e, portanto o corpo.
O racionalismo caracterizado na rígida desconfiança de possibilidade de apreensão da realidade pelo sensorial tem seu contraponto na obra de David Hume, segundo este é precisamente a possibilidade de experimentar os objetos sensíveis que nos coloca em contato com o mundo possibilitando assim a aquisição do conhecimento, o mundo se dá a conhecer e o corpo registra impressões de mundo, eis então que tomamos por sabida a realidade que nos circunda.
Poderia dizer que aquilo a que nomeamos de mundo (res-extensa) está no nível do apreendido a partir do cotidiano, todos estamos inseridos numa existência que se dá como algo que podemos reconhecer mediata ou imediatamente como realidade, e nos possibilita a construção do conhecimento, O conhecimento em seus vários níveis ou significações é um resultante de conexões subjetivas quando em contato com determinado evento e a capacidade humana de articular a linguagem (corporal, falada, escrita, pictórica) fornece o meio para a abstração e objetivação do mundo interior e exterior.
Mas em se tratando da escrita e da fala o conhecimento se dá pelo suporte do discurso, nisto Sócrates e os sofistas concordavam, ambos utilizavam-se fundamentalmente da linguagem para o desenvolvimento de sua atividade filosófica, era a partir dela que a construção e educação do pensamento seria possível, sendo para Sócrates um instrumento que conduz a verdade através da dialética, enquanto que para os sofistas a verdade era uma questão de persuasão, mais do que percepção e pensamento, justificando assim o uso da linguagem na forma de retórica visando o convencimento.
Conhecer será por fim, se pudermos definir, uma capacidade de apreender a realidade. O mundo é passível de ser conhecido. E seja pelas operações da razão, seja pelas impressões dos sentidos a realidade será uma construção imagética que efetivamos por meio do corpo quando em contato com os fatos e objetos do mundo. Será este, o corpo, que é propriamente o indivíduo, que nos colocará em contato com o mundo exterior e ainda, será também preciso crer nas convenções que se erguem como conhecimento certo, seguro e imutável, até que alguém demonstre o contrário. Caso não o fosse, talvez nenhuma ciência teria sida desenvolvida, a que se militar em favor de um paradigma para agregar o conhecimento e neste sentido, se não se pode chegar à verdade última, o conhecimento também será fé.
Kelly Guimarães
Outubro/2009
Os filósofos da antiguidade partiram da pergunta “o que é?” e esta atitude nos conduziu a diversos postulados filosóficos sobre como o conhecimento é possível ao homem. Heráclito de Éfeso fala do fluxo perpétuo, a constante transformação de todas as coisas e o problema: é possível saber alguma coisa? Se ao procurar conhecer o quer que seja este mesmo objeto do conhecimento já terá se transformado em outra qualquer coisa no instante seguinte? Um trajeto entre a realidade oferecida pelos sentidos e a apreensão pelo pensamento. O movimento, o fluir constante do universo e ao fim o produto disto não é conhecimento, porque a coisa já é outra. Então não é possível conhecer!
Demócrito de Abdera que desenvolveu a teoria do atomismo, diz que os seres são compostos e se constituem pelos arranjos e combinações entre partículas e nossa percepção ou apreensão da realidade é fruto da leitura que os órgãos fazem dos átomos, assim, o conhecimento sensível é tão real quanto aquele que o pensamento pode alcançar. O que captamos é precisamente a realidade.
Diriam os sofistas que todas as coisas são ou não são em virtude de como as percebemos ou mais: de como as interpretamos, considerando não existir um único princípio que a tudo comandasse apenas convenções estabelecidas pelos homens, uma sociologia do conhecimento talvez. As virtudes e as verdades eram entendidas como instáveis e fruto da conveniência e relatividade, um barco à deriva. Sócrates, no entanto, visou alcançar algo muito precioso e preciso: passar da multiplicidade de opiniões contrárias, de aparência opostas, de percepções divergentes à unidade da idéia, para ele era possível chegar a aletheia (verdade).
Em princípio a questão colocada é se haveria uma verdade última e se seria possível e que modo chegaríamos a ela, visto que o mundo que se nos apresenta entra em nós pela malha de nossos sentidos os quais nem sempre são precisos e estas imagens, estas percepções seriam decantadas pelo intelecto. Sobre isto concordaria Descartes para o qual “Nada existe.” e, na inexistência de todas as coisas, incluem-se os sentidos, toda a extensão que se apresenta por meio deles poderá ser apenas uma ficção do espírito, ou seja, aquilo que percebemos não existe necessariamente. O método de Descartes desvaloriza os sentidos e, portanto o corpo.
O racionalismo caracterizado na rígida desconfiança de possibilidade de apreensão da realidade pelo sensorial tem seu contraponto na obra de David Hume, segundo este é precisamente a possibilidade de experimentar os objetos sensíveis que nos coloca em contato com o mundo possibilitando assim a aquisição do conhecimento, o mundo se dá a conhecer e o corpo registra impressões de mundo, eis então que tomamos por sabida a realidade que nos circunda.
Poderia dizer que aquilo a que nomeamos de mundo (res-extensa) está no nível do apreendido a partir do cotidiano, todos estamos inseridos numa existência que se dá como algo que podemos reconhecer mediata ou imediatamente como realidade, e nos possibilita a construção do conhecimento, O conhecimento em seus vários níveis ou significações é um resultante de conexões subjetivas quando em contato com determinado evento e a capacidade humana de articular a linguagem (corporal, falada, escrita, pictórica) fornece o meio para a abstração e objetivação do mundo interior e exterior.
Mas em se tratando da escrita e da fala o conhecimento se dá pelo suporte do discurso, nisto Sócrates e os sofistas concordavam, ambos utilizavam-se fundamentalmente da linguagem para o desenvolvimento de sua atividade filosófica, era a partir dela que a construção e educação do pensamento seria possível, sendo para Sócrates um instrumento que conduz a verdade através da dialética, enquanto que para os sofistas a verdade era uma questão de persuasão, mais do que percepção e pensamento, justificando assim o uso da linguagem na forma de retórica visando o convencimento.
Conhecer será por fim, se pudermos definir, uma capacidade de apreender a realidade. O mundo é passível de ser conhecido. E seja pelas operações da razão, seja pelas impressões dos sentidos a realidade será uma construção imagética que efetivamos por meio do corpo quando em contato com os fatos e objetos do mundo. Será este, o corpo, que é propriamente o indivíduo, que nos colocará em contato com o mundo exterior e ainda, será também preciso crer nas convenções que se erguem como conhecimento certo, seguro e imutável, até que alguém demonstre o contrário. Caso não o fosse, talvez nenhuma ciência teria sida desenvolvida, a que se militar em favor de um paradigma para agregar o conhecimento e neste sentido, se não se pode chegar à verdade última, o conhecimento também será fé.
Kelly Guimarães
Outubro/2009
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