quarta-feira, 14 de outubro de 2009

A morte do boi

Numa manhã, ao lado do Mercado Municipal, na cidade de Carinhanha, extremo norte do estado da Bahia, às margens do Rio São Francisco, presenciei a cena brilhantemente iluminada pelo sol causticante do semi-árido sertão nordestino. No asfalto de paralelepípedo a quentura faiscava nas pedras. Ali iria ocorrer o abate de um boi. Essa imagem brutal ficou guardada na memória e registrado nesses rabiscos que agora transcrevo.

Assisti entorpecido o homem, de gestos secos e certeiros moldados a “arte” de matar, à sua função, atingir num só golpe a nuca do animal, a faca-peixeira de 24 polegadas, é tirada da bainha, afiada, capaz de cortar até o silêncio que se estanca diante a morte. Num movimento largo e com destreza fia o vinco na pedra mó.

Após o golpe, o boi desmorona no chão, mas estrebucha e tenta resistir, a respiração ofegante e os olhos arregalados, antes daparalisação derradeira, olhando o infinito que se esvai, ou para dentro de si, como se fora o espectador de sua própria morte. Aos poucos, perdendo as forças, mas o brio da vida ainda estava presente no corpo ferido, e num último ato de força e coragem tenta inutilmente se levantar. O homem se arma para o próximo ataque e agora, com a destreza do gesto definitivo, sangra a jugular do animal que não mais reage.

O sangue é amparado por um grande aguidal de barro. Como um exímio cirurgião, o homem inicia a operação de retalhar o couro, desnudando o corpo do boi, quando aparece, ainda quente a carne e seu tecido muscular à mostra e ainda trêmulo pelos espasmos dos nervos vivos e das veias mortas. É hora do esquartejamento. O machado de ferro para romper os ossos e a faca limada para manter o fio fino de navalha, a cabeça decepada se junta aos miúdos do corpo jogados em um canto. Os olhos continuam esbugalhados, observando suas próprias partes separadas da matéria, da vida. O ar impregnado do cheiro nauseabundo de sangue.

A faca afiada corta e recorta o boi em pedaços, em poucos minutos o corpo morto é apenas fragmentos, que serão expostos e vendido no próprio mercado e nas bancas da feira. Ali a compra é feita por peças, cada um da assistência já tem seu pedaço escolhido. Atando-o à ponta de um arame com uma espécie de gancho saem a puxar seu naco de carne pelas ruas da cidade, destino, à mistura do almoço.

É para isso que serve e deve se escrever. Para registrar o que um dia a memória pode vir a apagar. Seja relatando os esplendores da vida, como um botão de flor que se abre numa manhã orvalhada ou um “guarda-chuva vermelho que se abre numa tarde cinzenta de inverno”, seja delatando os estertores da morte, da vida, do homem, do boi.

Paulo Luís - Oficina Tantas Letras – outubro de 2009

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