quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Conversa de Criança

- Mãe!...
- Oi.
- Não é verdade que têm dois Jesus?
- Como assim?
- Ué!... Um no céu e outro no térreo.
- Deixa de ser bobo, moleque!...
- A senhora também é...
- Olhe o respeito comigo hem, garoto.
- É a senhora quem diz que seu cartão de crédito vive estourando, mas eu nunca ouvi o barulho.
- Engraçadinho!...
- Kassabinho?...
- Não mistura as coisas, eu disse engraçadinho!...
- Mas é que eu lembrei do sarfadana do prefeito...
- O que é isso menino!... Veja como fala, o prefeito é um homem de respeito.
- Homem de respeito uma pinóia!... Ele é um cabeção de biombo, é isso que é. Por que você votou no Kassabinho? A senhora não é criança.
- Mas, não foi você quem pediu?
- Ora! Eu pedi, mas a senhora e o papai não vivem dizendo que não é para fazer as vontades da gente que é pequeno?
- Sim, é verdade, mas nós achamos que você gostava tanto dele que resolvemos fazer seu gosto.
- Vocês são é muito burros.
- Mas por que você está falando isso, não gosta mais dele?
- Gosto do boneco, mas daquele palhaço, não.
- Que palhaço?
- O prefeito.
- Palhaço! O que ele fez?
- Ele não quer dá mais comida pra gente na hora do almoço. Que criança não precisa comer tanto assim, porque engorda.
- Ele disse isso?
- Disse e fez.
- Você não está mais comendo na escola?
- Só um merrequinha de nada. Que não dá nem para tapar o buraco do dente.
- Amanhã vou na sua escola ver o que está acontecendo...
- Vai nada, a senhora só vive escrevendo dentro do olho.
- Como escrevendo dentro do olho, menino? Você ta louco!
- Escrevendo, passando o lápis na beirado do olho, na frente do espelho, penca que eu não vejo não, é?!
-Ô, menino aquilo é maquiagem.
- Sei... Sei!... Deus tá vendo. Depois o doido sou eu.

Paulo Ferreira

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Ensaio sobre o por do sol

O tempo que resta assim se intitulava o filme, o protagonista morria numa praia deitado na areia, ao fim do dia. O céu em vermelho e roxo se encontrando com a escuridão e um corpo imóvel na praia deserta.

Na wikipédia, o por do sol é o momento em que o sol se oculta no horizonte na direção oeste que pode ser considerado como um processo inverso do nascer do sol que é quando o sol aparece no horizonte na direção leste. Ao período do dia em que ocorre o por do sol dá-se o nome de “ocaso”.

O referido fenômeno apresenta muitas características a serem estudadas, mas devo me ater a alguns aspectos, como segue:
1. a dinâmica das cores;
2. a fotografia do tempo;
3. a geografia das lembranças;
3.1 um país
4. ritos de sobrevivência

tópico 1 – a dinâmica das cores
as cores vibrantes amarelo laranja vermelho se juntam ao lilás e à ultima tonalidade do vermelho que é o roxo machucado e vão se mesclando em infinitas gradações até que a noite se instala - com o seu escuro de luzes urbanas, ou com o seu escuro de luz de candeeiro na mercearia da vila, ou com o sino anunciando a ave maria e os adolescentes saindo do colégio com os seus trinados peculiares numa cidadezinha qualquer.

tópico 2 – a fotografia do tempo
quando o roxo se torna roxo machucado voce sabe que esse é o último slide, é a ultima foto do fim.

Tópico 3 – a geografia das lembranças
neste tópico fiz várias descobertas em diversas fases da vida. Na infância, da calçada de casa, achava que o sol se escondia nas terras de meu avô; na adolescência, da varanda de casa, o sol se punha do outro lado da rua;
Na vida adulta em tres oportunidades de exílio doméstico, o sol era uma bola vermelha que brincava de esconde atras de prédios rosas e azuis que eu avistava da janela.

Tópico 3.1 – Um país
este é o tópico mais complexo, pois após observar o fenômeno de vários ângulos, localizado em diferentes lugares, constatei que ele também é um lugar, mais precisamente um país ou ainda seja mais certo definir como um não-lugar.

Tópico 4 – ritos de sobrevivência
neste país ou neste não-lugar se pode transitar sem ansiedade, pode se alimentar de cores, de tempo, de lembranças. E de qualquer cidade, de qualquer mirante, numa estrada que voce deixa para trás, quando vai embora numa certa tarde de Sexta feira com destino a São Paulo Rio de Janeiro ou Barcelona e a sensação de estar despencando, algo se perdendo para sempre em direção ao nunca mais e então o por do sol acolhe o choro, instala esse não-lugar, esse ponto para onde se pode voltar vindo de qualquer lugar; e assim se completa o pulo no abismo, e assim se pode enfrentar outros abismos e assim se pode inventar outros ritos, outros ritmos, outros ensaios.
Um Não-lugar de onde se pode ver a repetição dos dias, as pegadas do sol indo embora, marcando a passagem do tempo em sua suavidade e violência.


Conceição Bastos

De Volta às Palavras

Passo defronte à escrivaninha. Papel e lápis me aguardam. Sigo apressado. Outras responsabilidades me tomam o tempo.

Volto. Lá estão eles. Convidam-me à labuta. Paro. Penso. Sigo.

O que fazer?

Por diversas vezes tentei retomar meus escritos, mas existe um vazio em minha mente.

Ou não?

Parece que tenho tantas coisas para escrever e, ao tentarem sair de minha cabeça, todas ao mesmo tempo, encavalam-se com os tipos de uma máquina de escrever, datilografados simultaneamente.

O tempo urge. É necessário voltar a escrever.

Sento e, tomado de inspiração, começo. Estou de volta às palavras. Não sei se sentiram tantas saudades de mim quanto eu delas. Substantivos. Adjetivos. Pontos e virgulas. Concordância Nominal. Concordância Verbal. Grafar corretamente. Palavras. Palavras.

Estou em pane. Parece tão simples e fácil.

Há clareza em que escrevo?

Acho que abuso de eufemismos.

Não. Amasso o papel. O que pretendia mesmo contar? Que história esdrúxula. Inverossímil. É atemporal.

Meus leitores merecem algo melhor.

Animais, números, cores, sabores, odores.

Não. Não. Isso já foi contado milhares de vezes. Ou foram milhões.

Um lugar distante. Bem pra lá de Passargada. Sem reis e plebeus. O que acontece? Não sei. As palavras não me vem.

Outro lugar. A Lua. Isso: estou no mundo da lua.

Palavras. Palavras. Quero contar o que sinto. Talvez se relatasse meu último sonho. Aquele que esqueci ao contemplar a beleza dos primeiros raios de Sol.

Meu passeio de final de tarde. Ontem. A ida ao café. As pessoas que encontrei. Não. Alguém já falou disso. Acho que fui eu mesmo. Outro dia. Lembra-se. Era começo de noite e vocês aí parados.

Papel e lápis. Assim.

Quem sabe sonhei tudo isso.

Escrever é tão fácil. Basta pegar o lápis e fazê-lo deslizar pelo branco do papel. Cá estou eu. Nada.
Um crime passional. Isto. Somos todos movidos pela paixão. Posso descrever a bela jovem. O gracejo de seu sorriso e a provocação de seu olhar já seriam o motivo. A arma? Um papel e lápis. Ali parados. Convidando-me. Como o jovem cavalheiro que atravessa o salão para tirar a dama para dançar.

Não. Escrever é difícil. É necessário zelo. As palavras machucam. São afiadas como o bisturi que desliza com seu corte preciso.

Eu quero emoção com minhas palavras. Quero risos e lágrimas. Quero o amor da minha amada e o respeito do meu inimigo.

Elas devem sair tracejante como uma chuva de meteoritos e brilhantes como a aurora boreal.
Palavras. Palavras.

Escrever é apenas. Em papel. Com lápis, caneta ou bico de pena. Trazer em palavras a emoção não presente em mil imagens.

Sidnei Reinaldo dos Santos

ENSAIO SOBRE A EDUCAÇÃO

ENSAIO SOBRE A EDUCAÇÃO

Vivenciamos uma crise no sistema educacional brasileiro. Apesar de sua universalização, com a educação atingindo número de alunos em precedentes, a qualidade fica aquém de necessário para formar o cidadão pleno. A escola se transformou é um espaço de conflitos e os principais protagonistas - discentes e docentes – digladiam-se diariamente.

Poderíamos pensar que a postura passiva dos alunos fosse um comportamento “terceiro-mundista”, mas mesmo nos países desenvolvidos o conflito existe. O tema foi abordado no filme francês SOBRE OS MUROS DA ESCOLA 2008. Discorrer sobre o assunto não é tarefa fácil. Tendemos a ter um discurso panfletário. Mas vamos tentar pontuar alguns problemas que afligem, pais, educadores e, inclusive, alunos.

Raras vezes tivemos educadores como gestores-mores da educação. Historicamente, a educação tem sido tratada como palanque para catapultar políticos carreiristas. Os gestores-políticos jogam suas fichas em carreiras meteóricas. Apresentam fórmulas prontas, propostas por teóricos de gabinetes, sem prática docente, no intuito de resolver em um passe de mágicas, todos os problemas que se acumulam há décadas.

A cada nova gestão, novas tentativas que, em primeiro lugar anulam as vigentes desnorteando todos os envolvidos. Assim, o que era ruim, piora acentuadamente a cada novo governo, independente da esfera pública a qual nos dirijamos.

Estes novos planos não são discutidos com a comunidade escolar, com os educadores e seus representantes legalmente constituídos. Estão fadados ao insucesso e é só aguardar o próximo gestor e as próximas aventuras. A Educação (educadores e educandos) perdem neste jogo de interesses.

Orientado pelas propostas finais da Conferência Mundial de Educação Para Todos, realizada em 1990, na Tailândia, os países subdesenvolvidos colocam em prática medidas Neoliberais, reduzindo investimentos na educação. Superávit primário como reserva para honrar o pagamento da dívida externa consomem recursos.

Com a falta de recursos, cabe ao professor faz tudo “ser criativo” para resolver a falta de materiais em sala de aula. Criatividade passa a ser eufemismo de parcos recursos na educação.

Dentro das relações sociais, percebemos outros graves problemas no sistema educacional. Estamos entrando no que alguns pensadores já chamam de Era da Informática. Os aparelhos eletroeletrônicos estão presentes cada vez mais no nosso dia-a-dia. A modernidade traz benefícios, mas ainda não sabemos como conviver com ela.

A criança moderna é educada pela televisão. Os pais estão ausentes, no trabalho, para garantir recursos que irão prover a família ou em busca dele. Outros, menos instáveis psicologicamente, vagueiam por bares, bingos, etc., onde afogam as suas magoas de uma vida infeliz. Quando desempregados, vivem de políticas assistencialistas (Bolsa Família, Leve Leite, etc.) que governos criam para manter o status quo. Seu amor pelos filhos - o qual tenho certeza que existe - não é externado, já que não está na moda.

Ciente disso, um Gestor chegou a propor a Pedagogia do Afeto, para que professores suprissem o amor ausente para as crianças e adolescentes em casa. O professor pai-mãe iria ter uma relação fraternal e estaria resolvido o problema. Lógico que este não é o único empecilho para que se complete o processo ensino-aprendizagem e não deu certo.

Outro fator é a falta de perspectivas para o futuro próximo. A criança e o adolescente são inteligentes - cabe lembrar que inteligência não está necessariamente associada com o acúmulo de informações e a habilidade em ler e escrever - e vêem os exemplos na mídia (políticos corruptos e nepóticos, uso do corpo para enriquecer - modelos nuas, dançarinas seminuas, apresentadoras infantis com shorts minúsculos - futebolistas habilidosos, instrumentistas nem tanto, tráfico, etc.) de pessoas que não estudaram e se dão bem na vida e os contrários: graduados que não se empregam ou vivem do subemprego.

Ou seja, a mídia mostra o sucesso de alguns. E na sociedade capitalista sucesso está associado a acúmulo de riqueza. E o conhecimento não será, na perspectiva dele, riqueza se não puder ser transformado em dinheiro, bens de consumo, etc. o indivíduo é valorizado pelo que tem ou aparenta ter e não por aquilo que ele realmente é.

O lema “é melhor viver 10 anos a 100 por hora do que 100 anos a 10 por hora”, é o exemplo claro do imediatismo que crianças, adolescentes e jovens almejam. Vida loka e o barato é loko e o processo é lento são bordões repetidos à exaustão pelos jovens da periferia e, hoje, repetidos pelos filhos da classe dominante que ocupam os bancos escolares de colégios particulares.

O estudante perdeu o referencial do que é “estudar”. Estar na sala de aula e copiar algo é o seu limite. O sinal de interrupção da aula é o ponto final. O que copiava, para. O que escutava, cala-se. Nada mais existe. Aquilo é deletado de sua mente, indo para uma lixeira psico-virtual. Poucos têm a prática de se preparar para as argüições e avaliações na escola. Preparar-se para uma prova, rouba-lhe precioso minuto da vida. Afinal estudar para quê? Tirar boa nota para quê? Aprender para quê?

Ler então. Exige atenção, concentração, mais perda de tempo. O romance de tantas páginas pode ser compreendido a partir da sinopse existente na Internet ou do filme alugado na locadora.

A escola, aparelho ideológico, cumpre o seu papel. Seus muros “prendem” os alunos, mantendo-os longe dos acontecimentos e alienando-os. Como eles não entendem que quem detem conhecimento detem o poder, acabam subjugados, dominados, explorados.

No que se refere aos investimento, o dinheiro gasto em educação é pouco (2,4% do Produto Interno Bruto, em 2008). Além disso, os gastos são errados. Interesses escusos vem

Exemplo: no início de 2009 o governo de São Paulo imprimiu centenas de milhares de apostilas para servirem de apoio às aulas (na realidade são para serem seguidas à risca, com cobrança da coordenação, direção, supervisão) com a de geografia contendo mapas errados (América do Sul com dois Paraguais e sem o Equador).

Dinheiro para o ralo.

Cabe pensar: por que imprimir apostilas para apoio, quando há o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) que garante a todos os estudantes do país livros que servirão de apoio às aulas Quem lucrou com o uso de tal verba pública?

Com relação aos docentes. Não podemos negar que alguns são descompromissados. Utilizam a política do holerite. Ou seja: não cobram dos alunos, vivendo uma situação de camaradagem. Os alunos concordam em ficarem quietos para não chamar a atenção e, em alguns casos, recebem a resposta das atividades. Tudo num céu de brigadeiro. Ninguém se estressa.

Mas a grande maioria, compromissada, adoece em sala de aula. Estudos já apontam a existência de uma doença, a Síndrome de Burn-out, que atinge professores em atividade docente. Desvalorizado em sua carreira profissional e tratado como inimigo por aqueles que precisam do conhecimento e experiência adquirida em anos com os pés no chão da sala de aula; tratado como inimigo pelos governantes que os culpam pelo mau desempenho dos alunos; tratado como inimigo pelos pais que não entendem (e nem querem) por que o seu filho ainda não desenvolveu uma habilidade que possa enriquecê-lo e consequentemente à família; tratado como inimigo pela mídia, possuidora de contratos milionários com os governos de plantão.

A sala dos professores o patíbulo. Todos reclamam de suas angústias e sonham em mudar de profissão. O vício ao giz ou a falta de atitude os deixam décadas neste sofrimento.

A educação é pensada para que não dê certo. Um povo consciente é um povo que não será ludibriado tão facilmente. Conhecedor de seus direitos e cumpridor dos deveres lutará sempre por uma sociedade melhor. Quem detém o poder pode se sentir ameaçado.

A sala de aula: um grupo heterogêneo de crianças-adolescentes - meninos e meninas, brancos e negros, magros e gordos, baixos e altos, alimentados e famintos - que copiam tudo o que podem. Não produzem, somente reproduzem, e, por hábito, as respostas aos exercícios são copiar daqui . . . até aqui.

Não se identificam com os colegas ou com a escola. Há um estranhamento constante. Parecem querer demarcar o território (as marcas na parede e nas carteiras, a sujeira em torno de sua carteira, o falar alto, etc.), numa atitude animalesca.

O corredor e o refeitório são transformados em campos de batalha. A comida e o material escolar, as armas.

O exemplo da escola estadual da Zona Leste de São Paulo, em que os alunos “se rebelaram” e arremessaram carteiras e cadeiras janela abaixo, é um exemplo claro do que pode acontecer em uma escola. Foi necessária a intervenção da Polícia Militar.

Resumindo: a escola passou a ser um depósito de pessoas, individualistas e consumistas, com pouco amor próprio e recebido, de grades altas, cuidadas ora por pessoas sem compromisso, ora por pessoas sem auto-estima, pagas com o que sobra do dinheiro público (o restante foi desviado ou mal aplicado). As crianças circulam como em um shopping torcendo para dar a hora de ir para casa, para fazer qualquer coisa.

Como entendermos que, ao final das contas, a criança/adolescente cresça, arrume uma ocupação, construa família e siga esta roda viva. A responsabilidade vem ao longo da vida. A escola é importante, mas sofre ataques há décadas. Precisamos colocar a escola no centro dos debates. Toda a educação - recursos físicos, recursos humanos – precisa passar por uma reformulação. Consultar os profissionais da educação seria a saída mais lógica. Pena a decisão surgirá distante do espaço escolar, como “a mais eficaz reforma educacional de todos os tempos”. E tudo continuará exatamente igual.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Ensaio sobre a paixão

Que o ser humano não vive sem paixão, isso eu não tenho a menor dúvida, viver no sentido amplo da palavra. A paixão nos impulsiona, nos tira do lugar comum, nos dá um brilho diferente ao olhar. Sei que existem paixões que jamais se acabam, por exemplo: minha paixão pela escrita, pela arte, pelos filhos e assim por diante. Só que às vezes vivemos ignorando nossas paixões, a ponto de nos sentirmos mortos, só procurando estes sentimentos dentro de nós é que acordamos para a vida. Mas gostaria de enforcar a paixão entre pessoas, a que nos envolve e nos alucina quando menos esperamos. A sociedade quer aprisionar o ser e a partir daí a promessa de fidelidade eterna. Como se pode ter garantia da não paixão. A química do cérebro pede para que o coração enlouqueça? Como dominar este sentimento que se apodera da alma, se apodera do corpo, fazendo com que as pessoas até mudem de planeta. Temos a necessidade da renovação de sentimentos para nos mantermos vivos? Até quando é saudável a repressão? Até que a morte nos separe, ou até que o cérebro resolva jogar a química para o corpo para que as células fiquem latentes. De repente o ar muda, a cabeça fica zonza, pula-se obstáculo, cerca, corda, a alegria é absurda, perde-se o tino e é hora de sonhar, é hora de viver, é hora de se entregar. Não, quase sempre nos negamos esse direito, as mulheres são as mais castradas, enquanto que os homens parecem poder tudo, porque a paixão está ligada também ao sexo. Afinal, precisam preservar a espécie, são os machos... E a sexualidade das mulheres? Elas são realmente diferentes ou disfarçam os sentimentos? Disfarçam sentimentos... A mulher tem contas a pagar apenas com a evolução de sua alma, de sua existência, de sua responsabilidade humana perante a vida. A paixão gera sofrimentos e às vezes a dor alucina. Como evitar a dor da paixão? Não se apaixonando? E é possível não se apaixonar? Como evitar a dor? Não, não é possível não se apaixonar...

Solange Rossignoli 06.10.2009

Transformação

Vou buscando aguçar os meus sentidos. Pois, só assim, conseguirei realizar a melhor leitura das coisas. A minha leitura. Não a sua e nem a de ninguém. Apenas, a minha leitura.

As leituras me deixam quase sempre sensibilizado. Meu peito saturado de emoções faz verter, uma lágrima aflorar. É quando vem, inevitavelmente, a necessidade. Eu preciso encontrar alguma forma de representar. Representar a minha leitura. A leitura que faço das coisas.

Desta forma, eis que tudo me é revelado. E as palavras se encaixam como a magia mais íntima do meu próprio ser.

Imagens. São muitas imagens. Já não basta simplesmente falar. O falar se perde no tempo. O tempo passa e o falar se perde.

O devaneio dá à mão a insanidade e quebra as barreiras do tempo. É ai que transformo a minha leitura em escrita. Com isso, igualmente àquela marca deixada na alma, deixo também registrado em qualquer lugar do espaço tudo aquilo que os meus sentidos me permitiram, simplesmente, escrever.

Paulo Dantas

18/09/2009

Poema a 30 mãos

O cadáver imaginário se deita no horizonte.
Um gato pulando do telhado
Simples. E logo, é complicado.
Somos nossas palavras
O sorriso do triste enobrece
Foram 27 segundos de espera.
Não sei. Essa coisa quis sair, mas se prende a mim e de dentro grita...
Como o olhar ofuscado pelo sol
Roboticamente sem estrutura Física. Seus passos desengonçados num corpo feito pelo cientista.
Tensão, respiração; sangue, faca, gotas de fel.
Então ai, saberia que tudo quando meus olhos observa transtornados nada mais é que nada...
A flor do mal. Tão bela, tão contrária a mim.
Meu coração não quer se dilacerar. Quer amar.
Reter nas mãos o espontâneo da vida.
E aquela luz... que me cegou e me iluminou!

Proposta do escritor Luiz Roberto Guedes.