quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Merenda

A história que vou contar a vocês é sobre um menino que apareceu na época da eleição para prefeito da Cidade de São Paulo. Um belo dia, ele veio nos visitar na escola. Juro que acreditei e acredito na transparência daqueles olhinhos azuis. Lembro-me muito bem daquele dia de muito frio, e nós estávamos felizes. Sempre que íamos para a escola a gente não ficava com fome, a merenda estava garantida e tínhamos bastante energia para brincar. Kasabinho apareceu e tomou a merenda conosco. Brincamos juntos, chutamos bola e ele falou do seu sonho de ser prefeito quando crescesse. Poxa! Nós ficamos muito impressionados quando ele falou que continuaria sendo nosso amigo. Comentei com um colega de classe que nele poderíamos confiar. Não é que o menino conseguiu realizar o seu sonho! Chegou lá!Está administrando a cidade. Outro dia, lendo o jornal, vi uma reportagem que falava sobre a redução do número das refeições diárias das creches municipais, por motivos de economia. Ele disse que não sabia que esta atitude tinha sido tomada. Estranhei, porque sempre me pareceu tão bem informado. Mas acho que ele não precisava se justificar, pois isso foi feito para que não ficássemos obesos. Ele está preocupado com a nossa saúde, não quer que as crianças fiquem prejudicadas por excesso de alimentação. Gente, não foi por mal, ele é nosso amigo. Pensem comigo: Vocês acham que uma pessoa de caráter e bondoso como ele seria capaz de tamanha insensatez? Não, eu não acredito. Ele falou que continuaria sendo nosso amigo e amigo não faz isso, amigo não tem duas caras.

Solange Rossignoli 09.10.2009

A morte do boi

Numa manhã, ao lado do Mercado Municipal, na cidade de Carinhanha, extremo norte do estado da Bahia, às margens do Rio São Francisco, presenciei a cena brilhantemente iluminada pelo sol causticante do semi-árido sertão nordestino. No asfalto de paralelepípedo a quentura faiscava nas pedras. Ali iria ocorrer o abate de um boi. Essa imagem brutal ficou guardada na memória e registrado nesses rabiscos que agora transcrevo.

Assisti entorpecido o homem, de gestos secos e certeiros moldados a “arte” de matar, à sua função, atingir num só golpe a nuca do animal, a faca-peixeira de 24 polegadas, é tirada da bainha, afiada, capaz de cortar até o silêncio que se estanca diante a morte. Num movimento largo e com destreza fia o vinco na pedra mó.

Após o golpe, o boi desmorona no chão, mas estrebucha e tenta resistir, a respiração ofegante e os olhos arregalados, antes daparalisação derradeira, olhando o infinito que se esvai, ou para dentro de si, como se fora o espectador de sua própria morte. Aos poucos, perdendo as forças, mas o brio da vida ainda estava presente no corpo ferido, e num último ato de força e coragem tenta inutilmente se levantar. O homem se arma para o próximo ataque e agora, com a destreza do gesto definitivo, sangra a jugular do animal que não mais reage.

O sangue é amparado por um grande aguidal de barro. Como um exímio cirurgião, o homem inicia a operação de retalhar o couro, desnudando o corpo do boi, quando aparece, ainda quente a carne e seu tecido muscular à mostra e ainda trêmulo pelos espasmos dos nervos vivos e das veias mortas. É hora do esquartejamento. O machado de ferro para romper os ossos e a faca limada para manter o fio fino de navalha, a cabeça decepada se junta aos miúdos do corpo jogados em um canto. Os olhos continuam esbugalhados, observando suas próprias partes separadas da matéria, da vida. O ar impregnado do cheiro nauseabundo de sangue.

A faca afiada corta e recorta o boi em pedaços, em poucos minutos o corpo morto é apenas fragmentos, que serão expostos e vendido no próprio mercado e nas bancas da feira. Ali a compra é feita por peças, cada um da assistência já tem seu pedaço escolhido. Atando-o à ponta de um arame com uma espécie de gancho saem a puxar seu naco de carne pelas ruas da cidade, destino, à mistura do almoço.

É para isso que serve e deve se escrever. Para registrar o que um dia a memória pode vir a apagar. Seja relatando os esplendores da vida, como um botão de flor que se abre numa manhã orvalhada ou um “guarda-chuva vermelho que se abre numa tarde cinzenta de inverno”, seja delatando os estertores da morte, da vida, do homem, do boi.

Paulo Luís - Oficina Tantas Letras – outubro de 2009

O que penso e o pensamento dos outros (Ensaio?)

Pensadores deixam seu legado a quem interessar possa. A gente examina e assimila, ou rejeita. Faz tempo que abandonei o hábito de avaliar as coisas e separá-las em dois arquivos, as certas e as erradas, porque entendi (aqui na minha maneira de ver), que isso não existe. Sei que existe para a maior parte das pessoas, e respeito, mas isso foi desprogramado do meu sistema, acho que por desuso. Hoje assimilo o que me falta para continuar construindo meu caminho e apago, o que não me serve.

Provocar é induzir ao erro. Ao erro de responder, de debater e argumentar, tentar infiltrar uma idéia na cabeça de alguém, querendo que esse alguém veja as coisas como você vê. Isso é uma bobagem. Você diz o que pensa e quem toma conhecimento das suas avaliações, afina-se com elas ou não, compartilha com você ou não, acompanha sua trilha ou não. Ninguém convence ninguém de nada.

Quem têm convicção de suas idéias, não as debate, nem têm necessidade de defendê-las. A busca pelo debate é um impulso causado pela incerteza, pela necessidade de afirmação de algo a cerca do que não se tem muita convicção, é um impulso movido pela inquietação da dúvida.

Exceção ao debate socrático. Este é o único debate que tem como base a dúvida consciente, a certeza de que nada se sabe, e o desejo de elaborar junto com o grupo escolhido algumas conjeturas. Essas conjeturas são apresentadas quase como um pedido de "convença-me do contrário", "desconstrua minha idéia", "apresente-me o seu ponto de vista"... Porque é o ponto de vista do outro o que me falta para que eu possa conhecer melhor o que há em volta. Um exercício de elaboração participativa, entre pessoas convidadas a dar sua contribuição para elaboração de algo maior do que apenas uma opinião. Os adeptos de Sócrates eram convidados a emprestar seus olhos para que todos pudessem ver através dos olhos uns dos outros e assim poder crescer. Coisa elegante, generosa e afetiva, movida pelo respeito e pela admiração daquilo que se opõe a mim, que é diferente de mim, o outro, o próximo, ou seja, tudo o que não sou eu.

Perde quem tenta transformar algo tão precioso, que é o outro, o diferente, o que não está contido em mim, o complementar, o que ainda me falta, em uma réplica do conhecido, do manjado, do mastigado e digerido, um clone do eu. Este não cresce, não rompe suas limitações, não ultrapassa fronteiras e morre enterrado no próprio umbigo, não desperta, não vive.

Paulo Luís – Oficina Tantas Letras - Outubro de 2009

ÉTICA - OU A FALTA DELA

Ética: parte da Filosofia que estuda os deveres do homem para com Deus e a sociedade; deontologia, ciência da moral

Nasci no mato, sou caipira, mas aos três anos, fui morar numa grande cidade. Como a família crescia e também o aluguel, meu pai logo tratou de comprar uma casinha à prestação, numa distante cidade dormitório do ABC paulista. A casa tinha um quarto e cozinha e um banheiro externo, sem cobertura. Imagine se alguém tivesse dor de barriga durante um temporal! Não havia luz, água, esgoto, asfalto, nem pensar. Usávamos lampião a querosene e meu pai, muito esforçado, abriu um poço no quintal, as crianças eram as incumbidas de tirar a água para toda a família. Quando chovia, chegávamos à escola sempre mais pesados, nossos sapatos carregavam uma boa quantidade de barro. Tornei-me mestre em deslizar sem cair, era um ponto de honra chegar à aula com a roupa limpa! Nenhum muro dividia as casas, tínhamos um vasto quintal para brincarmos; as galinhas sabiam qual era sua casa, pois só minha mãe possuía galinheiro e elas sempre voltavam para dormir nele.

As bocas aumentavam e meu pai plantou uma horta bem variada no quintal. Eu e meu irmão éramos os responsáveis por mantê-las sempre aguadas duas vezes ao dia. O trabalho era duro, mas sentíamos alegria ao ver os resultados. Vendíamos o excedente de porta em porta, garantindo o pão e leite do dia seguinte.

Na rua acima só existiam casas de um lado. Do outro, uma rica mata nativa que eu sempre visitava, sozinha ou com a família. Ainda posso sentir seu cheiro de vida. Hoje, o local é um belo parque municipal, onde nasce o rio Tamanduateí.

Saí dali ao casar, e fui morar novamente em uma grande cidade. Usar chuveiro e torneira, o barro ficou para trás. Dez anos depois, mudei-me para Rondônia. Numa cidade atravessada por grandes rios e igarapés, ter água era um luxo permitido por poucas horas ao dia. Era apenas filtrada, sem nenhum tratamento, todas as pessoas eram acometidas por giardísie e amebísie. A energia elétrica era gerada por motores a diesel e racionada ao extremo. Havia dias em que tínhamos luz por apenas três, quatro horas. A temperatura na mata, já amazônica, era bem agradável, mas na cidade sem árvores, a média anual ficava em quarenta graus, ficávamos prostrados de calor, sem poder usar o ventilador. Consegui morar lá por dois longos anos. Ao voltar para o sudeste, passei a implicar com torneiras abertas sem necessidade e luzes acesas à toa.

Faço essa retrospectiva para pontuar alguns comportamentos que observo em vários lugares. Sou pedestre e tenho condições de observar os motoristas em seus carrões, não importa se novos ou velhos, caros ou econômicos, nacionais ou importados, a mesma cena se repete: o vidro é abaixado e lixos são arremessados para a rua. Num dia de tempestade, os mesmos motoristas xingarão São Pedro e os políticos pelas enchentes em que ficarão presos, à mercê do resgate ou não dos bombeiros, tendo seus carros arrastados, suas vidas em perigo, mas no auge de seu desespero, jamais responsabilizarão a si mesmo pela ajuda que deram ao jogar seus entulhos na via pública, contribuindo também para o caos.

Minha cidade é a única da região que faz coleta de lixo reciclável. Uma vez por semana, eu e mais três moradores da rua colocamos os recicláveis na calçada. Na noite anterior, o caminhão de resíduo orgânico leva para o aterro sanitário os recicláveis dos outros moradores, desperdiçando material precioso para a cooperativa de desempregados que funciona ao lado do aterro e separa os materiais, conseguindo um bom preço pela venda. No meu trabalho há coletores destinados aos recicláveis e ignorados pelos funcionários. De madrugada (trabalho à noite), inspeciono as lixeiras e retiro garrafas plásticas limpas e as coloco no local adequado. Também me recuso a usar copo descartável. Pessoas como eu são chamadas de “ecochatos”.

Trabalhei por muito tempo na periferia. As ruas estavam sempre cheias de crianças e adolescentes ociosos, seus pais trabalhavam e eles ficavam sozinhos, jogados à própria sorte. O estatuto do adolescente proíbe o trabalho a menores, permitindo que eles estudem, mas não há vagas para todos. Como na sociedade atual, vale mais quem tem, os traficantes logo os possuirão, seja como usuários, fugindo de sua triste realidade, ou como vendedores, para comprar seu tênis, celular, MP3, e alguns passarão com nota máxima, verdadeiros gênios, no vestibular do crime, aptos a possuir de maneira violenta o que teriam com trabalho honesto, se formados para tal. Eu comecei a trabalhar quando criança, nunca fiquei sem estudar e não me senti explorada por isso, ao contrário, somávamos nossas forças. Claro que os tempos eram outros, o quintal de casa era grande e podíamos plantar, criar galinhas, garantia de não passarmos fome. Eu gostaria de ter brincado mais, estudado mais, mas adquiri valores preciosos para minha vida. Naquela época valia quem "era".

A vida hoje é bem mais fácil, pelo menos nas grandes cidades e há uma preocupação em urbanizar as favelas. Enquanto lá trabalhei, cadastrando famílias, quase a totalidade tinha acesso à água e energia elétrica e não pagavam por isso. Não pagavam aluguel, transporte e possuíam acesso grátis a ônibus por serem pobres.

Perto de casa, há uma bonita área verde, com muitas árvores e gramado bem cuidado. É possível encontrar várias espécies de pássaros. Já vi até um pica-pau. Este local não é aproveitado por crianças e seus pais, cachorros e seus donos, talvez por isso tornou-se ponto de venda e uso de drogas. Suas encostas são usadas para despejo de entulhos de construção, móveis velhos, colchões. Eu insisto em lá passear. Quando criança, a mata possuiu para sempre meu espírito e deixou em mim a memória marcante de seu cheiro, seu mistério, seus encantos. A falta de luz me aproximou do céu, me transformando em contempladora do passado da humanidade; quantas vezes vi, extasiada, estrelas cadentes e passava horas imaginando o espaço e os deuses que lá moravam...

Eu tinha, de graça, alimentos orgânicos no prato e hoje leio, horrorizada, os percentuais de agrotóxicos presentes nos alimentos. Eu não tinha Barbies, Polys, cds da Xuxa, Melissas, mas podia fazer eu mesma balanços de corda e voar rumo ao sol. Se uma criança hoje fizesse o percurso a pé que fazíamos até a escola ou nos passeios à mata, parariam, arquejantes, no meio do caminho. Agora são levadas à aula de vans: tristes crianças enjauladas em apartamentos ou casas com muros e portões altos, cercas elétricas, sem direito ao sol, árvores, flores, sem direito a uma vida de verdade, mas muito bem equipados com computador, Wii, celular; pequenos adultos que dominam a tecnologia melhor que seus pais e avós; nunca jogarão taco, queimada, pega-pega, tornando-se obesos, hipertensos, com taxa elevada de colesterol.

Há uma grande mudança nas relações. O "eu" impera absoluto: "tenho que me formar, ter ótimo emprego, ganhar bastante, o carro do ano, uma casa moderna. Companheiro? Sim, mas tem que ser perfeito, ideal e que me idolatre, senão troco por outro. Filhos? Talvez aos 35 anos...". Com tantas facilidades, sucesso, as pessoas não são felizes e "compram" uma fuga em busca da alegria. Bebem, se drogam, viajam, adquirem bens e continuam tristes e vazias. Não aprenderam que a verdadeira felicidade está naquilo que é, ou seria, de graça: passear numa área verde, molhar os pés num riacho limpo, sentir o calor do sol, o vento no rosto, olhar estrelas numa noite sem lua. Ter amigos e simplesmente filosofar sobre suas reais necessidades, seus afetos, descobrir os reais valores que engrandecem o ser. Olhando para trás, o período mais difícil e pobre em que vivi, foi também o maior em riquezas, aquelas que realmente contam e nos preenchem.

Outro dia, numa palestra, um professor de filosofia disse que nos últimos 30 anos, destruímos 30% do planeta. A continuar nesse ritmo, daqui a 65 anos, conseguiremos chegar a 100%. Quem sabe até lá, descubram outro planeta, com água em abundância, onde possamos iniciar uma nova vida, sem os erros cometidos. Um lugar onde possamos sobreviver sem poluir os rios e a atmosfera; plantar sem veneno e tratar a terra com sabedoria. Um lugar em que os animais estejam nas matas, felizes, sem zoológicos, e que, finalmente, o homem aprenda a se alimentar sem destruir vidas. Ou, grande sonho meu, aprendamos a reverter o caos em que nos metemos.
E Deus, onde entra nessa história? Ele é o dono do Universo e nos emprestou o planetinha, que insistimos em lotear, vender, comprar e sujar a nosso bel prazer.

Elisabete Rodrigues Limeira
Tantas Letras! 2009.

Acerca de uma teoria do conhecimento ou as operações do entendimento versus o balaio de impressões, um ensaio

“Todo homem, por natureza, deseja conhecer”, esta frase atribuída a Aristóteles, me faz pensar sobre este desejo e mais ainda sobre a possibilidade e os procedimentos mentais ou sensoriais que nos fazem conhecer.

Os filósofos da antiguidade partiram da pergunta “o que é?” e esta atitude nos conduziu a diversos postulados filosóficos sobre como o conhecimento é possível ao homem. Heráclito de Éfeso fala do fluxo perpétuo, a constante transformação de todas as coisas e o problema: é possível saber alguma coisa? Se ao procurar conhecer o quer que seja este mesmo objeto do conhecimento já terá se transformado em outra qualquer coisa no instante seguinte? Um trajeto entre a realidade oferecida pelos sentidos e a apreensão pelo pensamento. O movimento, o fluir constante do universo e ao fim o produto disto não é conhecimento, porque a coisa já é outra. Então não é possível conhecer!

Demócrito de Abdera que desenvolveu a teoria do atomismo, diz que os seres são compostos e se constituem pelos arranjos e combinações entre partículas e nossa percepção ou apreensão da realidade é fruto da leitura que os órgãos fazem dos átomos, assim, o conhecimento sensível é tão real quanto aquele que o pensamento pode alcançar. O que captamos é precisamente a realidade.

Diriam os sofistas que todas as coisas são ou não são em virtude de como as percebemos ou mais: de como as interpretamos, considerando não existir um único princípio que a tudo comandasse apenas convenções estabelecidas pelos homens, uma sociologia do conhecimento talvez. As virtudes e as verdades eram entendidas como instáveis e fruto da conveniência e relatividade, um barco à deriva. Sócrates, no entanto, visou alcançar algo muito precioso e preciso: passar da multiplicidade de opiniões contrárias, de aparência opostas, de percepções divergentes à unidade da idéia, para ele era possível chegar a aletheia (verdade).

Em princípio a questão colocada é se haveria uma verdade última e se seria possível e que modo chegaríamos a ela, visto que o mundo que se nos apresenta entra em nós pela malha de nossos sentidos os quais nem sempre são precisos e estas imagens, estas percepções seriam decantadas pelo intelecto. Sobre isto concordaria Descartes para o qual “Nada existe.” e, na inexistência de todas as coisas, incluem-se os sentidos, toda a extensão que se apresenta por meio deles poderá ser apenas uma ficção do espírito, ou seja, aquilo que percebemos não existe necessariamente. O método de Descartes desvaloriza os sentidos e, portanto o corpo.

O racionalismo caracterizado na rígida desconfiança de possibilidade de apreensão da realidade pelo sensorial tem seu contraponto na obra de David Hume, segundo este é precisamente a possibilidade de experimentar os objetos sensíveis que nos coloca em contato com o mundo possibilitando assim a aquisição do conhecimento, o mundo se dá a conhecer e o corpo registra impressões de mundo, eis então que tomamos por sabida a realidade que nos circunda.

Poderia dizer que aquilo a que nomeamos de mundo (res-extensa) está no nível do apreendido a partir do cotidiano, todos estamos inseridos numa existência que se dá como algo que podemos reconhecer mediata ou imediatamente como realidade, e nos possibilita a construção do conhecimento, O conhecimento em seus vários níveis ou significações é um resultante de conexões subjetivas quando em contato com determinado evento e a capacidade humana de articular a linguagem (corporal, falada, escrita, pictórica) fornece o meio para a abstração e objetivação do mundo interior e exterior.

Mas em se tratando da escrita e da fala o conhecimento se dá pelo suporte do discurso, nisto Sócrates e os sofistas concordavam, ambos utilizavam-se fundamentalmente da linguagem para o desenvolvimento de sua atividade filosófica, era a partir dela que a construção e educação do pensamento seria possível, sendo para Sócrates um instrumento que conduz a verdade através da dialética, enquanto que para os sofistas a verdade era uma questão de persuasão, mais do que percepção e pensamento, justificando assim o uso da linguagem na forma de retórica visando o convencimento.

Conhecer será por fim, se pudermos definir, uma capacidade de apreender a realidade. O mundo é passível de ser conhecido. E seja pelas operações da razão, seja pelas impressões dos sentidos a realidade será uma construção imagética que efetivamos por meio do corpo quando em contato com os fatos e objetos do mundo. Será este, o corpo, que é propriamente o indivíduo, que nos colocará em contato com o mundo exterior e ainda, será também preciso crer nas convenções que se erguem como conhecimento certo, seguro e imutável, até que alguém demonstre o contrário. Caso não o fosse, talvez nenhuma ciência teria sida desenvolvida, a que se militar em favor de um paradigma para agregar o conhecimento e neste sentido, se não se pode chegar à verdade última, o conhecimento também será fé.

Kelly Guimarães

Outubro/2009

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Escrevo

Por extrema sede

Por puro desespero perante a morte

Por pura paixão...

Por estar apaixonada pela vida

Por estar viva perante um mundo que às vezes preferia estar morta.

Solange Rossignoli

Imortal

Perguntam o porquê escrevo, e eu respondo. A principio quando comecei a escrever, confesso que foi por puro desespero, era para não enlouquecer por completo. Hoje penso que seria para resolver meu problema com a língua e para isso achei que escrever seria um modo mais prazeroso de aprender, mas pensando bem, acredito que escrevo para continuar a viver a qualquer custo, independentemente de estar ou não neste mundo. Escrevo porquê tenho a pretensão de ser imortal.

O poeta é um ser tão criativo, que inventa até um amor

Só para sair da rotina

Só para escrever poesias

Hoje estou tentando escrever, mas a inspiração não vem ao meu favor.

Não quero falar de amor

Tão pouco falar de dor

Fica difícil escrever desse jeito.


Solange 24.09.2009